É muito importante ter voz. E tem sido muito importante ser ouvida. Mas uma das coisas que mais tem me feito falta é o silêncio.

No silêncio a gente tem a possibilidade de se ouvir. De se afastar um pouco do barulho, das vozes do mundo e realmente se escutar. Escutar os próprios pensamentos. Hoje em dia somos muito cobradas pela nossa opinião - e é fundamental se posicionar - mas nem sempre temos algo a dizer. Nem sempre eu preciso falar alguma coisa. Me explicar ou me provar pro mundo. Às vezes sinto que o melhor que posso fazer é me calar. Tem tanta gente com tanta coisa pra dizer, tantas outras pessoas, tantas vozes a serem ouvidas. É importante estar em cena, e ocupá-la. Mas é imprescindível contracenar. A cena não se faz sozinha. Se faz da relação. Eu relo em você, você rela em mim, e isso é relação. Contato. Proximidade. Jogo. E num jogo, eu não tenho que estar com a bola o tempo todo. A bola tem que circular. Tão importante quanto estar em cena é saber o momento de sair dela. Deixar outras pessoas ocuparem. Estar em silêncio me deu a tranqüilidade pra lembrar disso. De não precisar estar sempre fazendo alguma coisa, me colocando sempre em função de algo. Existir pra além do feicetruk, instagram, página, redes sociais, selfie. Sentir o tempo numa outra freqüência.

Às vezes tenho a sensação de que sempre estou trabalhando pra mim mesma.

Sou funcionária da Mc Linn da Quebrada. Sem folga, nem tempo pro almoço. Sem ter que tomar decisões. O silêncio me fez lembrar da Linn que não é cantora, que não é artista, que é apenas um corpo. Pele, órgãos, ossos, afetos, medos, fome, vontades. Me fez lembrar que posso ser minha melhor companhia. Fez eu querer me conhecer melhor. Fez eu olhar o espelho e me perguntar quando foi que eu me tornei o reflexo refletido. Me fez querer estar na minha própria pele. "


 

 

Linn escreveu seu texto depois do workshop sensorial com a artista Paula Garcia proposto pelo Meio-Fio. Ali, conectores e refletores foram convidados a passar um dia inteiro em silêncio. Sem relógio, celular, livros ou o contato com os outros, a proposta era que conseguissem se desconectar do exterior para acessar suas vozes internas.

 

Fotos: Vtao Takayama