"Design não está somente nas revistas e blogs ou restrito ao público com a fala bela das galerias e exposições, basta abrir os olhos para vê-lo acontecer nos detalhes cotidianos. Vamos fazer um exercício de percepção e aguçar o olhar afetivo para o design que acontece organicamente em diversas formas e lugares. O limite segregatório de um diploma encontra fronteiras no cotidiano. O design como solução de problemas pode ser visto em sua essência no cotidiano, e, em sua grande maioria, desprovido da criação pretensiosa do mundo acadêmico. Transite pela feira de rua do seu bairro para encontrar soluções inovadoras e inusitadas.

Este post é um olhar afetivo e cauteloso a uma banca de pastéis em Pinheiros.

Um mergulho nos detalhes construtivos e engenhosos das feiras de rua e seus dispositivos temporários e temporais, arquiteturas transportáveis, transnômades, expansíveis e colapsáveis.

TRANSTERRITORIAL

Quinta-feira, 5:15: a Rua Antônio Bicudo, em Pinheiros, começa a ser ocupada pelos feirantes. Arquiteturas flexíveis, módulos itinerantes carregam peixes, pastéis, abobrinhas. O loteamento invisível, porém seguido à risca, perpetua-se rotineiramente de modo pacífico. Carros dão espaço aos alimentos, aos vegetais, ao óleo em ebulição - epílogo gastrointestinal - o apetite tem espaço em explosões multi sensoriais. Não tarda para ser ocupado por transeuntes em abundância, que se acumulam pelas ruas recriadas entre barracas.

 

As barracas pantográficas transitam em feiras da cidade, não existe site-specific para uma barraca de feira. Os pastéis dos irmãos Myashiro ocupam, desde 2009, a esquina da Antonio Bicudo com a Arthur de Azevedo. Mas, isso não impede que cruzemos com seus pastéis em outras feiras ao longo da cidade. A barraca comprime-se e expande-se diariamente em outras localidades, infinitamente.

 

Urbanismo orgânico e, ainda assim, cartesiano. A construção do espaço acontece coletivamente, desenhando um mapa mental que todos os participantes compartilham e seguem á risca - mas que nunca foi traçado por ninguém. Uma relação topológica entre as demais barracas e o entorno. 

Engasga um com carne, a garapa chama a atenção do deslumbrado transeunte. Garrafas de suco alinhadas. A moenda digere a cana -alquimia estética-, misturada com gelo e sucos diversos. Abacaxi, gengibre e garapa, emulsificam a experiência gastronômica.

TRANSMATERIAL

Feiras livres. A complexidade organizacional de uma formação urbanística que, organicamente, dura 12 horas. Repete-se á exaustão. A capacidade detalhista de um design para a cidade e para os transeuntes, somente possível ao se aprimorar repetidas vezes; muitas vezes pela intuição, outras tantas pelo acerto e erro. Métodos subjetivos que acabamos por esquecer no dia a dia criativo: a inventividade passa sobretudo pelo aprendizado diário, pelo convívio e percepção dos problemas para, somente assim, sugerir e propor desenhos, encaixes, detalhes que possam atendê-los.

Este post é o primeiro de uma série em que buscamos catalogar e documentar soluções do design que estarão em nossa publicação Manual de Sobrevivência do Design, um catálogo de juntas, materiais, tecnologias e demais informações que possam servir como facilitador de práticas de consertos, reparos, construções, criações e edições em inúmeras escalas (saiba mais em breve).

 

 

 

 

Fotos: André Romitelli e Martina Brusius