"Bastião para alguns campos de arte, a formação acadêmica é uma premissa para aceitação de muito trampo por aí.

Precisamos de algumas validações pro fomento tornar-se relevante - isso no mercado de arte e moda, principalmente. Pós graduação fora do país. O curso x com suecas celíacas. Enfim, quanto mais rebuscado seu currículo, maiores as suas chances na hora da peneira por um trampo dentro do mercado - que, particularmente, paga mal e vive da punhetagem.

Punhetagem essa que afasta toda a faixa periférica de ser uma engrenagem dentro do mercado de moda e arte. Que vive de portifa e da tal "visibilidade".

Vim de uma frente desconectada a essa realidade e estou vivenciando a treta diária que é fomentar um trampo de moda no quadrante do Oiapoque~Chui. Formado em Marketing, nunca sentei em uma aula de costura. Tampouco ouvi horas e horas sobre processos de modelagem, construção de linhavos e maquinário industrial, mas, de forma autodidata e em abas e mais abas de tutoriais, saquei alguns princípios básicos - com a vivência e pela mensagem que gostaria passar, criei perguntas e as respondi com as roupas. 

A Cemfreio é um "procedimento" de vestuário que está muito mais no corre de estabelecer uma nova semântica de aproximação do produto e sua força em criar políticas corporais, do que em qualquer parada de instaurar "TENDÊNCIAS".

Nesse processo de ressignificação do meu trampo, descobri que o mercado ainda é muito escravocrata. SIM, todo designer de moda é um pouco escravo (mesmo os que são bem "bonadão" nas onça e financiam a-torto-e-a-direito seu sonho). Essa é uma parada que não te contam na faculdade, né não? Aprendemos o teórico. As formas num esquema de MUNDO IDEAL, que na realidade é pictorico e utópico.!

Significado de Utopia

 s.f. Que está no âmbito do irrealizável; que tende a não se realizar; quimera, sonho; fantasia.

O mercado não é horizontal, ainda somos reféns de mídia, multimarcas e etecera (outro lance que não ensinam nas aulas de marketing).

Quantos de nós saimos da faculdade manjando o mínimo de processos financeiros? MEI, nota fiscal, processo de estoque, organização de bens, fundo de caixa, entre outras coisas?

A Cemfreio sobrevive atualmente de todas as minhas outras vidas. Sou Batman, Bruce Wayne e Robin para fazer a marca continuar acontecendo, pois o mercado ainda quer baratear nosso trampo ao máximo, com empréstimos que nunca retornam, consignação e a tal da VISIBILIDADE.

Mesmo aos trancos e barrancos, aprendemos uns lances e a vida é aprendizado compartilhado, certo? E eu justamente quero ensinar um pouco disso, partindo do meu processo criativo, saca só:

Para a minha primeira coleção, passei 2 meses criando: imaginando a silhueta, o enredo a discussão, as perguntas, a cartela de cor, tudo que faz parte do processo de construção de imagem daquela fase. Croquis, compra de tecidos, testes de cor, entre outras paradas.

Depois de tudo preparado e organizadinho, entrei no processo de execução: desenvolvimento das modelagens, compra de tecidos, costureira, adequação, pilotagem... um processo que rolou também uns 2 meses inteiros.

E por fim, chegamos na venda com still, contato nas lojas multimarcas, organização de estoque e geração de notas fiscais. Do início da fase de execução e estruturação da coleção até efetivamente o início das vendas passaram-se, sepá, 4 meses. Então, partindo daqui, já começamos 4 meses (no mínimo) sem nenhum giro de caixa. Só grana saindo e nada de grana entrar, sacou?  

 

Aí, se liga e acompanha comigo: Um produto que dura cerca de 4 meses para ser executado, possui um valor de distribuição mais elevado que a peça que você consome nas grandes multimarcas - fabricantes de réplicas massificadas, construídas num tempo ridiculamente menor. Por isso, podemos questionar design, acabamento e estética, agora preço já é um novo patamar, sacou? 

Minha roupa não é cara, ela é uma sucessão de pequenas etapas manufaturadas e caras pacaralho

A logística distributiva força a duas realidades: Uma margem de lucro baixa ou estoques abarrotados do mesmo produto, pois as fabricantes estão adaptadas às demandas sugeridas pelo fast fashion. Por exemplo, quando contratamos uma private label ou facção (serviços que você contrata para produzir a coleção a partir dos croquis e/ou modelagem criado por você) para executar a reprodução destas peças, existem quantidades mínimas por artigo/tamanho que em média é de 30~50 peças. 

 

Daí continua o raciocínio, para você produzir seu produto em escala tu precisa putear o design em uma quantitativo absurdo ou pagar muito caro em uma quantidade menor e mais pontual, vivemos em uma faca de gume duplo, manobrando pra não se cortar bem na jugular!

Ainda não aprendemos o meio termo entre a execução do pequeno produtor e sua relação quantitativa. Partimos de estruturas, aquelas que ensinam na faculdade e, dentro dessa rede de informação pré estabelecida, deixamos de absorver as novas maneiras de execução do mercado. A Cemfreio têm tentado criar essa paralela entre quantidadexvelocidade. Temos atualmente a cartela de Básicos, que participam da coleção perene; destes há estoque e são os que tornam as performances mais rentáveis, os tais BATE-CAIXA. E temos as peças exclusivas, que nascem de acordo com o projeto que estamos trampando no momento, como no caso da  (Jaqueta comemorativa com o Meca Festival) e os bordados VAMOQVAMO.

 

 

E, ah! Seguinte: estoque, escala e produção também podem derrubar uma marca que está começando. Certifique-se do seu produto e de quem é público antes de sair metendo o pé e produzindo a torto e direito.

De todas as paradas que não ensinam na faculdade a mais importante é: TU VAI TER QUE LOMBRAR PESADO ATÉ A GRANA DO INVESTIMENTO VOLTAR E MANA É BA-BA-DO!"