"A falta de certeza guia o mundo contemporâneo.

O chão só lhe é firme nos pés por constantemente lembrar nosso corpo de sua existência através do toque. O mundo sem chão é aquele que não duvida de uma probabilidade, que se encanta com o imprevisto e com a autoorganização das moléculas – que um dia nascem braço, mas não duvide se à noite já forem orelha.

Ver o próximo no metrô, tão longe e tão perto da sua realidade, e reparar, mesmo que de relance, na linha do maxilar que é tão menos linha do que você tinha achado que um maxilar deveria ser. Poderia ser esse o alarme que o sacode e grita que, se uma linha pode te fazer reordenar suas experiências para acrescentar o novo ao seu repertório, como podem opções serem jogadas fora?

Ninguém nunca viu e nunca verá o mundo inteiro para ter certeza que um 44 é uma possibilidade que não vale a pena, que acontece pouco (como se isso fosse desculpa).

Quarenta e quatro é um pé, mas também pode ser o número de pessoas que regem a heteronorma do que é e do que não é. Só um número menor que seis dígitos para fazer sentido à falta de acolhimento ao diferente.

Quarenta e quatro menos 4 dedos dá 40, o maior número que grande parte dos fabricantes de sapato oferece nas suas coleções. E agora vemos marcas que estão se engajando em uma grade de tamanhos maiores – a Melissa, por exemplo – mas ainda tratando isso como se fosse um conceito inovador, e não o básico em uma sociedade plural. Tamanho não é exclusividade e, como cliente, só ter uma opção em uma loja repleta de formatos é ilógico perante os códigos que dizem por aí – de que "o cliente tem sempre razão", etc. E o sem gênero no discurso, que parece reforçar que o masculino abriu a possibilidade de maiores números, como se mulheres não pudessem calçar 44? Será que o apelo ao público feminino diz que certos números não serão necessários? Será que é falta de orçamento? Será que é preguiça? Falta de ver pés?

É ruim escrever certezas, discorrer sobre um assunto é presumir muitas coisas e poder, sem nem reparar, podar possibilidades. Perguntas combinam mais. Não é? Será que faz sentido? Será que cortando minha Melissa ela vai caber?

Será que vale a pena cortar? Será que o desconforto combina com todes que não são contempladas? Será que as pessoas aceitariam a dor como apenas mais uma sensação que agrega tanto quanto corrói, como qualquer outra sensação?

Para testar essas perguntas requereu só uma tesoura de cozinha - provavelmente 44 anos mais velha que a gente - e um par de Melissas número 39/40. Corta aqui, corta ali e vai.

Distorceram tanto nossa realidade que só saindo da curva e se distorcendo pra tentar afirmar sua realidade e seu corpo como real, legível e necessário. E esse é só o começo do distúrbio estileras em busca de um saltinho pro role ;)

Um pé tamanho 44 é um pé de monstro? É sim, gata :)"

 

E, assim, Ricardo Boni e Brendon Xavier, famosos por reconstruir e repensar as possibilidades, começam a sua série: "calçados de monstro"; a partir de números aleatórios de Melissas, vão criar, recriar, e transformar seus próprios sapatos para seus próprios pés. Os experimentos poderão ser vistos a partir desta quinta-feira no instagram, facebook e nos próximos posts da dupla.

 

LIVE  

Quando: quinta-feira, 13 de outubro, 22h

Onde: Facebook Estileras

 

 

 

Fotos: Vtao Takayma e acervo pessoal