Entrar na casa (que também é ateliê) de Alexandre Herberte é fazer uma viagem pelo universo das texturas. Desenrolar fios, fitas e muitas histórias que começam no Juazeiro do Norte e chegam a São Paulo, mas também olham para o mundo através de mapas feitos com tecidos de locais como Itália e França – algumas de suas regiões favoritas.

Dou de cara com Pretinho, um gato arretado e especial como seu dono, que dorme ao lado da máquina de tecer, mas logo acorda para acompanhar a minha visita.

Alexandre é um artista que cria obras através da tecelagem. Um trabalho delicado e cheio de complexidades que me intriga e fascina ao mesmo tempo. Misturando fios de pesca, palha de seda, fitas de VHS, couro e diversos outros materiais ele ultrapassou o limite de ser um tecelão para se tornar artista plástico e, como era de esperar, um dia a moda bateu a sua porta. 

 

“Foi um caso quase místico”, recorda. “Comecei a ter aulas com a artista Silvia Ribeiro, que havia sonhado comigo e acabei descobrindo que morava bem perto da minha casa. Após um mês ela me colocou para trabalhar ao lado de João Pimenta, para criar os tecidos da coleção de inverno 2012.” Com o estilista ele passou seis meses desenvolvendo o desfile O Príncipe e o Monstro e, apesar de ainda não ter o domínio completo do maquinário maior de tecelagem, dos 30 looks desfilados, 27 tinham seus tecidos. Nada mal para alguém que quando trabalhava na prefeitura de Cariri gravava sete horas de fita cassete para assistir os desfiles de moda que rolavam em São Paulo e trocar ideias com os amigos. 

 

Só com João Pimenta foram mais três coleções, entre elas uma feita com palha de seda, material xodó do artista, e outra com os mesmos fios das fitas onde gravava os desfiles. Também criou para Weider Silveira na Casa de Criadores, entrou para o catálogo de Li Edelkoort - referência mundial em pesquisa de tendências de tecidos -, desenvolveu bolsas, experimentou com arame, resíduos de couro, fitas do Padre Cícero, fios de ouro e muito, muito mais. Sua experiência, ele compartilha com os alunos da rede Sesc onde ministra cursos até o fim desse ano. Exposições e oficinas estão para estrear em 2017 e a moda continua batendo a porta, mas só entra quando vem acompanhada de projetos interessantes e criativos. “Amo a moda, mas gostaria de ver os alunos com mais experiência em tecelagem”, diz ele, expressando em voz alta seu sonho de fortalecer essa indústria no Brasil. 

 

Eu já não sei mais que horas são e, sentada tomando um café com bolo de laranja e linhaça feito por ele (Ale também é ótimo na cozinha, veja só) eu pergunto se acredita que em algum momento a moda pode se tornar arte (uma questão que sempre faço o tempo todo, para todo mundo) e ele diz, com aquele jeito calmo e especial, sorrindo e me olhando:

“a roupa nos acompanha do nascimento até a morte, mas perdemos a noção disso, pois estamos vestindo ela diariamente então nos esquecemos dessa relação que é bidimensional, mas se torna tridimensional quando está no nosso corpo. Isso já é uma arte.”

E eu já não quero mais sair de lá.




Fotos: Thomas Rera

 

Votação Meio-Fio

Depois das trocas de inspirações, histórias e experiências chegamos a uma nova fase do Melissa Meio-Fio: a exposição de ideias. Os Refletores foram convidados a desenvolver um projeto autoral que revelasse suas singularidades e devolvesse um pouco da força criativa que São Paulo oferece diariamente. Orientados por um Conector, eles receberam a chance de olhar para si mesmos, suas expressões e potências e criarem algo que refletisse seu percurso até aqui.

Descubra os projetos dos refletores e vote no seu favorito, 3 deles serão escolhidos e materializados em 2017