"Desde pequena, sempre soube que eu era diferente.

Enquanto a maioria das meninas era apaixonada pela Barbie, eu curtia mesmo as bonecas da Shee-Ra. Elas eram demais, tinham cabelos coloridos, uns vestidos lindos e uns makes diferentes também. Minha mãe era bem cult e curtia toda vibe oitentista: escutava muito Eurithmics e Madonna, e eu amava aquilo. Acho que essas referências de música e cinema que tive desde cedo foram muito importantes para definir a minha história.

Lembro quando assisti pela primeira vez o clipe de Being Boring, do Pet Shop Boys, na MTV. Quase enlouqueci. Tudo o que eu mais queria era estar dentro daquela cena, com aquelas pessoas lindas, naquela casa bafo. Eu tinha sete anos (!), não fazia ideia de quem era Bruce Weber e o quanto esse nome viria a ser relevante na minha vida. Com Freedom, do George Michael, foi igual, e com World, do New Order, também.

No cinema não foi muito diferente. Assisti Blade Runner meio que na mesma época e, quando vi O Labirinto, com o David Bowie interpretando o Rei dos Duendes, caí de amores por ele. Não era uma coisa muito comum para uma criança naquela época, mas acredito que tudo isso contribuiu para eu ir saindo um pouco da curva e me tornar o que sou hoje. Tipo assistir Edward Mãos de Tesoura em 1991 aos oito anos de idade no cinema.

Essas imagens, os artistas, os cenários, tudo isso foi me moldando para me tornar uma pessoa mais criativa,

mais aberta para novas experiências e com um pezinho constante no alternativo, tanto nos quesitos turma de amigos, lugares para sair e roupas para vestir, quanto nos quesitos namorados, viagens e afins.

Me enfiei, por exemplo, na cena clubber de São Paulo logo no início, por volta de 1997, quando tinha 14 anos. Falsificava identidade pra entrar nos clubes e me montava loucamente porque falavam que quem não era estiloso seria barrado. Eu e meus amigos fazíamos vaquinha para comprar a revista Mixmag, que custava uma fortuna. Batíamos ponto na Galeria Ouro Fino e ficávamos horas escutando músicas e montando nossos looks. Era muito bacana, porque nossa criatividade não tinha limite e havia uma sensação no ar de se estar vivendo algo único na cidade, que poucas pessoas em São Paulo tinham percebido. O livro Babado Forte, da Erika, virou uma bíblia.

Enfim, acho que eu não seria quem sou hoje se não fossem por esses momentos e por essas vivências e convivências. Sofri muito bullying. Nunca fui a gatona da escola, nem a mais popular. Tenho nome exótico e gosto mais de roupa de menino do que de menina. Amo sarcasmo e gente que não se leva muito a sério. Tenho dois gatos, e um deles possui uma conta no Instagram. Um dos meus sonhos é poder ir ao Japão todo ano.

Às vezes acho que sou moleca demais e gostaria de ter seios menores, mas, no fim das contas, é isso que me faz eu. E estou bem com isso."

Gatos, memórias e a colagem de tudo que fez Chantal ser quem é. 

 

Fotos: Vtao Takeyama e Thomas Rera