"Aconteceu assim: depois de décadas tendo o corpo julgado, de ser eleita como a mais feia da escola, da família tirando o prato antes de você acabar de comer.

Depois das inúmeras dietas, dos chás de berinjela, das dietas da USP, dos líquidos, dos pontos. Depois de ser representada somente em função de chacota na mídia, de ouvir diversos “até que você tem um rosto bonito", "se emagrecesse ficaria linda”, “assim nunca vai arrumar um namoradinho”, “tem certeza que vai comer tudo isso?”, “já tentou remédio?”. Depois de se drogar com esses remédios e abalar toda sua estrutura emocional, de ser preterida em relacionamentos, de aceitar relacionamentos abusivos já que, afinal, quem ficaria com alguém “desse tamanho?”. Depois das catracas dos ônibus não estarem preparadas para você passar, das cadeiras de plástico te aguentarem, de ser uma saga enorme sair para simplesmente comprar uma calça, de não conseguir realizar o parto do seu filho nos hospitais tranquilamente pois os equipamentos não estão preparados para você, depois de ter a saúde questionada por todos - “só estou preocupado com sua saúde” -, depois de ser considerada doente para trabalhar, depois de adquirir e vencer os distúrbios e transtornos alimentares, depois, só depois de todos os processos que resultaram em marcas emocionais e longos processos de aceitação que as gordas, aos poucos, começaram uma revolução: amar seus corpos.

E começaram a questionar e exigir. Exigir respeito, acessibilidade e protagonismo - ousar. Ousar em vestir o que quisessem; as roupas coloridas, as listras, a barriga de fora, o short mostrando a poupa da bunda, os braços à mostra, e tudo o que disseram que era um grande erro fashion para “esconder as gordurinhas”.

E então, as marcas começaram a perceber que é bonito ter status de marca engajada. E que, principalmente, dá lucro ter fama de marca engajada.

As meninas com sede de consumir viram uma fonte de lucro. Aí vem as campanhas de publicidade sobre a aceitação de todos os corpos. As campanhas colocando modelos com um pouco mais de quadril e cheias de retoques como gordas - as campanhas que só reafirmam os padrões. Essas modelos são lindas e sexies sim, e podem até serem consideradas “plus size” em um mercado da moda massacrante com um padrão irreal de beleza. Mas elas não são gordas. Há uma quantidade imensa de meninas realmente gordas e igualmente maravilhosas esperando apenas uma chance para protagonizar essas campanhas. 

Nós não temos medo da palavra gorda.

Nós queremos ver barriga, coxa, celulite, estria, culotes e gordura interna da coxa. Nós não queremos nos esconder. Não queremos que alguém fale por nós. Nós vivemos as questões, superamos essas questões e criamos voz - não deixaremos os discursos sobre representatividade serem apropriados. Nós somos gordas, nós somos sexies e nós queremos estar na capa da revista.

 

Fotos: Vtao Takayama, acervo pessoal e divulgação

 

 

Votação Meio-Fio

Depois das trocas de inspirações, histórias e experiências chegamos a uma nova fase do Melissa Meio-Fio: a exposição de ideias. Os Refletores foram convidados a desenvolver um projeto autoral que revelasse suas singularidades e devolvesse um pouco da força criativa que São Paulo oferece diariamente. Orientados por um Conector, eles receberam a chance de olhar para si mesmos, suas expressões e potências e criarem algo que refletisse seu percurso até aqui.

Descubra os projetos dos refletores e vote no seu favorito, 3 deles serão escolhidos e materializados em 2017