A primeira vez que fui para Paraty, ainda era estudante do curso Técnico de Turismo, da ETESP – FATEC da Av. Tiradentes. Minha turma e eu viajamos para cumprir normas do processo para tirar carteira de Guias de Turismo.

Nunca imaginaria que dez anos depois voltaria à cidade como Artista.

O turismo era um Plano B. Recém chegado a São Paulo, morando do lado da instituição, que ainda hoje oferece esse e outros cursos gratuitos, pensava assim: “se não der certo aqui, pelo menos volto para o Nordeste com novos conhecimentos, coisas que podem ser aplicadas na forte indústria do turismo que temos por lá”. Eis que a exposição TENET entra na minha vida em 2011, e, daí, tudo mudou. 

 

TENET significa: Tecendo na Net. Trata-se de exposição que nasce nas redes sociais a partir do reencontro de tecelões, artesãos, designers e artistas têxteis. Com curadoria de Renato Imbroisi, Juan Ojea e Marta Meyer, as três primeiras edições aconteceram no A CASA Museu, mas, este ano, fomos para Paraty (e foi uma festa).

 

A TENET me lançou como artista. Antes dela, tecia por hobby e fazia produtos têxteis, tais como: xales, cachecóis, bolsas de VHS, etc. Qual não foi minha surpresa, na primeira edição, ao estar do lado de Mestres que fazem da arte têxtil um estilo de vida? 

Para se entender a importância da TENET, temos de pensar sobre a arte da tecelagem brasileira nos últimos cem anos.

Vocês já ouviram falar de Regina Gomide Graz, Norberto Nicola, Jacques Douchez? Ou Sylvia Ribeiro, Eva Soban, Liana Bloisi, Ana Cordeiro, Helena Carvalhosa, Mirian A. Pappalardo, Renata Meirelles, Miko Hashimoto, Mara Doratiotto ou os mentores da TENET: Renato, Juan e Marta? Poderia enumerar outra lista de nomes incríveis aqui. Pois bem, é graças a eles e tantos outros artistas que essa arte - que usa fibras, naturais ou sintéticas, como suporte e matéria prima na construção dos seus trabalhos - vive e resiste neste país (que ganhou fama de desconhecer e desvalorizar a própria arte e seus artistas). Essa história de que arte e artesanato não andam juntos - pelo amor de Deus! - só atrasa nosso desenvolvimento.

 

Com Regina Graz, a tecelagem manual e as tapeçarias tiveram seu primeiro momento como protagonista no Brasil. Sim, isso ocorreu depois da Semana de Arte Moderna. Vamos ter anos de ouro com esses dois grandes artistas Norberto Nicola e Jacques Douchez, do começo década de 1960 até década de 1980. Eles elevaram a tapeçaria do plano bidimensional para o espaço tridimensional, aqui no Brasil. 

 

Na década de 1980, dentre os nomes que hoje expõe na TENET, alguns davam os primeiros passos no ofício artístico. Participaram das Bienais têxteis no MASP, integraram o grupo de tecelões e começaram a dar aula no SESC Pompéia, recém-inaugurado. Outros abriram ateliês e estúdios têxteis. Aquela década é um grande marco para a Arte da tecelagem brasileira. Agora, com a abertura das importações, no governo Collor, abriu-se uma lacuna de quase 13 anos em que a arte ficou sufocada e os artistas têxteis perdidos pelo país. Foi pela internet que eles se reencontraram: teceram na net, a TENET.

 

Dessa vez, em Paraty para o Eco Festival me senti em casa. Hospedado em pleno centro histórico, hóspede da Mestre Ana Cordeiro, passei cinco dias deliciosos convivendo com todos os trintas artistas participantes dessa edição da exposição "Tecendo na Net”, além de amigos e conhecidos presentes na cidade.

 

O melhor dessa viagem foi a convivência entre todos. Convivência pode ser algo bem delicado. Se você não teve uma boa educação, que lhe ensinou o verdadeiro sentido que a palavra implica; respeito, cooperação, flexibilidade, ajuda, integração, partilhar tarefas, gentilezas; você esquece que dormir e acordar com outras pessoas, ou dividir os mesmos espaços, implica noções de limites, de colocar-se no lugar do outro, implica tolerância e reconhecimento do tempo para se fazer as coisas. A convivência em casa é uma; é familiar, essa é a palavra. As pessoas com quem cruzamos na rua são tão “estranhas”, “desconhecidas”, que por não serem “familiares”, podem ser ignoradas, destratadas, … e a viagem a Paraty foi familiar, no sentido mais bacana. Foi afeto, trocas de conhecimento, interesses mútuos em aprender mais, saber dos processos criativos do outro. Gente, isso vale ouro!

 

A abertura da exposição fez parte do Paraty Eco Festival, produção do Instituto Colibri e Instituto Rio Moda. Paraty Eco Festival “é um projeto de preservação do patrimônio cultural imaterial (popular/artesanato) que incentiva e valoriza propostas inovadoras e criativas para a sustentabilidade das comunidades tradicionais, fortalecendo e destacando a cultura local e as culturas das mais diversas regiões brasileiras”, segundo a coordenadora geral Bernadete Passos. Além da exposição TENET, tínhamos uma vasta variedade de palestras, feiras, oficinas, desfiles. Perfeito. Super recomendo viajar a Paraty durante Eco Festival. Parabéns a todos!

O Vrá!, ponto alto da viagem (além de estar com a obra Caminho do Ouro III, em exposição na cidade de Paraty) foi quando saí da Casa de Cultura para abraçar minha amiga Sabrina Moraes e chega a modelo Thayná Soares e me pergunta: 

 

- Você quer desfilar? 

- Eu, desfilar? Quero. 

 

Faltava duas horas para o evento. Eram dois desfiles na noite, só que eu ainda não sabia de nada. Quando cheguei nos camarins, soube que iria desfilar Dheymm Modara. A estilista era a menina que meia hora antes  eu havia encontrado na rua enquanto Sabrina e eu nos preparávamos para tirar foto. A Dheymm integrava equipes participantes da 6º Mostra de Design Sustentabilidade. Lá fui eu.

 

Pronto para acabar o primeiro desfile da noite, eis que recebo segundo convite para desfilar pelas lindas Lena Santana e Daphene Segal. Elas apresentaram a coleção maravilhosa Isca Viva - roupas incríveis, com bordados idem. De babar! Gente foi um desbunde. Lena disse: arrase! Ao som de atabaque segui adiante na passarela. 

 

Os artistas Tenetianos, todos presentes, foram fãs calorosos de gritar, aplaudir e vibrar: Vai Alexandre! Eu fui. Amei.

 

 

A TENET me lançou como artista, sim. E serei sempre grato por essa visão deles. Eu, que era só “a semente” de um possível Alexandre que pudesse brotar, me tornei quem sou a partir daquela oportunidade. Eles me deram o solo fértil e eu consegui me desenvolver da melhor maneira possível. Se cheguei a essa quarta edição é porque finquei raízes e cresci. Brotei. Busquei estudos, palestras, encontros, pessoas. Procurei lapidar dons, talentos; reverter, amenizar e transformar defeitos. Isso só é possível a partir da convivência com o mundo. De como você se posiciona nele. Tenho a impressão de que a vida sempre nos coloca em situações decisivas, pessoal ou profissionalmente. Ainda que, nem sempre, se saia bem nelas, reflita sobre erros e acertos; caso contrário, continuará dando giros em volta de si até se dar conta de que precisa melhorar a sua parte nessa história.

Thereza Garcez, Tânia Stahl e Mirian Andraus Pappalardo amei ir e voltar com vocês de carro.  Obrigado.

 

 

 

 

 

A Exposição TENET (Tecendo na Net) fica em cartaz na Casa de Cultura Torres Câmera, em Paraty, até 04 de dezembro próximo.

 

Fotos: Iberê Perrisé, Paraty Eco festival, Instituto Colibri, Rio Moda

 

 

 

 

 

Votação Meio-Fio

Depois das trocas de inspirações, histórias e experiências chegamos a uma nova fase do Melissa Meio-Fio: a exposição de ideias. Os Refletores foram convidados a desenvolver um projeto autoral que revelasse suas singularidades e devolvesse um pouco da força criativa que São Paulo oferece diariamente. Orientados por um Conector, eles receberam a chance de olhar para si mesmos, suas expressões e potências e criarem algo que refletisse seu percurso até aqui.

Descubra os projetos dos refletores e vote no seu favorito, 3 deles serão escolhidos e materializados em 2017