Quando o homem começou a tecer?

A data exata, não se sabe. O tecido nasceu mais ou menos em todas as partes do mundo. Onde era mais frio, a trama encorpou. Em terras tropicais, sem função de segunda pele, o tecido era usado para carregar alimentos ou forrar chão de terra, por exemplo. A trama tecida nasce a partir da observação que o homem tem da natureza. A arte da cestaria é anterior à arte da tecelagem, e é dela que vem o ponto mais básico das tecituras da tecelagem manual, chamado de ponto tela.

O mais incrível é que, mesmo com seis mil anos de história, a arte da tecelagem e dos teares continua se renovando, e o ritmo de produção dos teares mecanizados não tornou obsoleta a tecnologia do tear manual.

Esse conflito entre o aplicativo Uber e os taxistas, repleto de competição pelo espaço de trabalho, violência e confrontos, me fez pensar sobre outro momento da nossa história.

Em Sevilha, fins do século XVIII, começo do século XIX, mais de doze mil tecelões ficaram desempregados por conta das fábricas têxteis e seus teares mecanizados. Tecelões de toda a Europa passaram por essa crise. E, sim, os tecelões foram para a frente de combate, para as portas das fábricas. Houve sérios confrontos, e de nada adiantou. A Revolução Industrial avançou.

Aqui no Brasil, na mesma época, D. Maria Primeiro, em acordo comercial com a Inglaterra, ordenou incinerar todos os nossos teares manuais.

A consequência desses dois episódios: a máquina substituiu o homem em larga escala. Há avanços que são irreversíveis. Os taxistas e os profissionais do Uber terão que se adaptar, penso.

A tecelagem brasileira ficou sem poder usar os teares por certo período, ao contrário dos demais países latino-americanos, que mantiveram, de lá até aqui, suas tradições têxteis e seus saberes manuais da tecelagem. Todavia, ninguém está imune à voracidade do capitalismo. As máquinas industriais podem até substituir o homem em larga escala, mas jamais substituirá a criatividade humana, a sua percepção de mundo e o modo como isso o inspira a dar forma ao seu conhecimento.

Há tempos quero criar um tecido coletivo, fazendo do próprio corpo instrumento de linguagem têxtil. E daí que conheci a professora de Metodologia do Trabalho Científico, cujo mantra é: fazer diferente, fazer diferença.

Esse mantra, desejo, oração se transformou em projeto em 2007 e se mantém até hoje, resultado das inquietações internas e observações cotidianas do Ensino Superior a futuros educadores. Dessas reflexões acerca da sociedade e do nosso compromisso em relação a ela, a professora passou a propor aos estudantes que levassem para fora – para além dos muros da Instituição, antes do término do curso – os conhecimentos que julgassem ser capazes de compartilhar. Profa. Ms. Lucimar de Santana é bacharel e mestre em Comunicação Social, professora universitária na Faculdade Paulista de Arte, e quer que os jovens consigam fazer diferença na qualidade de vida das comunidades. Ela é amiga, parceira e ainda canta e interpreta como ninguém. Eu diria: alma de artista.

Enfim, a partir dela e de seu projeto em sala de aula, e, principalmente, porque meus amigos de faculdade também aceitaram entrar nessa aventura (com tudo conspirando a favor), vamos pôr as mãos nas fibras e tecer: Tecido Coletivo.

 

Acompanhem comigo: trabalho de faculdade em equipe + toda sala juntos + professora Lucimar + vontade de fazer tecido coletivo  + Coletivo Dois + apoio do Projeto Melissa Meio Fio + resíduos do bairro Bom Retiro (doados por Gustavo Silvestre) = delicioso movimento têxtil prestes a se realizar.

 

 

Vamos criar tecido humano e coletivo. Uma experiência única, e que quero compartilhar com vocês. Venha ver meu sonho acontecer, venha 'fazer diferente, fazer diferença.'

Exercício do tecer: Construção de tecitura ponto tela, com resíduos têxteis do bairro Bom Retiro.

Ação coletiva de quarenta alunos do segundo e primeiro semestre da Faculdade Paulista de Artes, coordenados por Alexandre Heberte. 

 

Quando: Dia 12 de outubro, ás 14h 

Onde: Elevado Costa e Silvia, ali na altura da saída do metrô Marechal Deodoro 

 

 

 

Sobre o DOIS: o coletivo é formado por três amigos fotógrafos; juntos realizam trabalhos em parcerias e se ajudam nas atividades autorais. Somam força e rezam pela mesma cartilha que acredito: ninguém faz nada sozinho, unindo forças podemos gerar crescimento e transformações positivas para todos. Esse aprendizado compartilhado produz resultados e, como passe de mágica, uma coisa leva a outra e assim estamos sempre criando e produzindo. Vivas nossas parcerias. Eles assinam as fotos desse post, e vão ser eles que registrarão a nossa atividade do dia 12.

 

 

Fotos: Coletivo Dois (Daniel Correa, Letícia Veríssimo, Mayra Biajante)