"Adoro séries e filmes com muito sangue, aqueles bem 'Tarantinizados’*.

 

Vermelho para todo lado, cabeças rolando, fêmures sendo partidos ao meio como quem tem o azar de não saber riscar fósforo, sempre quebrando no meio antes de pegar fogo. Quanto mais as facadas fizerem jorrar sangue, mais divertido – melhor ainda se a pessoa que arranca o sangue em questão for uma mulher negra com dreads e uma espada samurai. Assisto a esse tipo de filme na hora do almoço. Entretanto, já parei muitos pela metade por algum zoom em um corte de um dedo causado por papel, por exemplo. Ou por alguma câmera lenta de uma agulha entrando no braço, bem lentinha, fazendo a pele em torno dela ficar fundinha. Ou, ainda, por conta da pelinha do dedo da menina do filme sendo puxada (finalizamos aqui os detalhes por motivos de pressão baixa). Acho que esse é um fenômeno bem amplo. Todo mundo adora a pancadaria e os efeitos hollywoodianos em Django Livre, mas mandou desligar a TV quando, lá em 2002, alguém em Smallville decidiu tirar pedaços da pele enquanto tomava banho – traumas eternos. Seja como for, as coisas, quando vêm de levinho, doem bastante; quando vem de monte, passam de uma vez, tão grandes que a gente nem sente.

Isso poderia ser uma profunda e complexa metáfora sobre a vida, mas só quero falar sobre a Linha 3 Vermelha em horário de pico mesmo.

Em um belo dia, calculei errado meu horário de voltar para casa e me vi na estação Barra Funda do metrô, às 18h, daquele jeitinho que os paulistanos conhecem bem: a própria lata de sardinha. Qualquer movimento em falso iria deslocar o meu pescoço; se meu celular tocasse, seria o fim; se meu pé coçasse, que o universo tivesse piedade de mim. A respiração estava difícil, mas, felizmente, todos os desodorantes estavam em dia, e conseguiríamos seguir até a Sé em paz. Tava tudo suave. Pensei na vida, refleti sobre o que ia fazer para a janta, dei sorrisinho e falei “opa hehehe” toda vez que o metrô brecou pesado e jogou todo o meu peso em cima dos corpos desconhecidos mais próximos. Tão apertado que nem precisaria checar para ver se o meu celular ainda estava são e salvo na bolsa, porque só uma poeira conseguiria passar por entre os vãos e tentar furtar meus aparelhos eletrônicos.

Mais tarde, peguei a vanzinha que me levaria de São Paulo a Guarulhos. Daquelas clandestinas mesmo, com vidro fumê, que fazem 30 km em 10 minutos (paulistanos a conhecem). Tinha esquecido meu bilhete em casa, e, como muita gente não confia nas clandestinas, estava sobrando um ou dois lugares, ou seja, puro luxo. Uma moça sentou do meu lado – ficou meio apertado, mas tudo bem (conforto é a última coisa que importava ali). A viagem iniciou, só que alguma coisa não estava certa. O braço da moça estava encostando no meu. Estava errado. Eu não tinha como me aproximar mais da janela, eram bancos realmente pequenos. 'Será que se eu me movimentar ela deixa o braço mais junto do corpo dela?

Será que ela está ultrapassando a divisão do assento? Odeio esses bancos que não tem aquele apoio de braço no meio.

'Esse braço está ultrapassando todos os limites do meu espaço pessoal. Ela não está vendo a linha que divide os assentos? Vou fingir que vou mexer no cabelo.' E nada do braço se mover.

Quão íntima era aquela situação. Duas pessoas completamente desconhecidas se tocando. A minha pele tocava a dela. Eu nunca tinha a visto na vida e não acreditei que seguiria 30 minutos de viagem tocando um braço desconhecido. Trinta minutos de completa tortura psicológica. Trinta minutos em que um braço tocando o meu me incomodou mais do que mosca zumbindo na orelha quando a gente quer dormir. O que era aquele braço?

Por que aquele braço inofensivo me tirou do eixo, enquanto estar na Linha 3 Vermelha, quase destroçando meu pescoço, era tudo bem? Que raios tinha aquele braço para me tirar do centro da minha passividade frente à cidade?

O braço estava de levinho. O braço era a câmera lenta, o zoom, o foco. O braço trouxe um recorte close-up para a cena. O braço era a folha de papel cortando o dedo. O braço era a pele saindo no chuveiro em Smallville. O braço incomodou porque o braço humanizou aquela mulher, me fez refletir sobre ela, me roubou toda a atenção e colocou nela. ‘O que pensa este ser que não se incomoda com meu braço tocando o dela? Será que só eu estou sentindo essa tensão no ar? Será que ela está dormindo? Deve ser gente do interior.’

Aqui, em São Paulo, a gente geralmente vê as pessoas como coisas – e não por maldade, na maioria dos casos.

Temos doses pesadas de pessoas todos os dias. Estamos tão acostumados a estar perto delas que é automático não refletirmos sobre elas como pessoas. São coisas. Coisas que respiram e andam, e que me darão um esbarrão sem pedir desculpa. Coisas que vão passar e desatolar o caminho para eu poder chegar em casa. Na Barra Funda, na Luz ou na Sé, às 18h da tarde, todo mundo é coisa. Coisa neutra ou coisa que pode tirar o celular da sua bolsa. Mas é todo mundo coisa. Você não se importa em esbarrar em coisas; você não se importa em doses pesadas de coisas sem significado; você não se importa quando as pessoas estão mais para Tarantino e vêm de uma vez, porque aí ficam sensacionalistas o suficiente para não lhe causar desconforto real.

No começo da universidade, li um texto que mudou a minha vida: ‘As grandes cidades e a vida do espírito’, de Georg Simmel, que fala basicamente sobre um conceito que ele chamou de ‘Caráter Blasé’

'Caráter Blasé' seria uma postura apática que o indivíduo de grandes metrópoles desenvolveria sobre a vida e sobre todos os outros para conseguir se defender da grande quantidade de estímulos que ele recebe em todos os espaços.

Quando li esse texto, tinha acabado de chegar da minha cidade natal (Assis, interior de São Paulo). Encontrei-me completamente no tipo de cidadão que Simmel descreveu como aqueles vindos de pequenas cidades em contrapartida ao cidadão das metrópoles. Eu estava longe de ser Blasé. Sentia tudo com intensidade, e pedia desculpa para cada pessoa que esbarrava na Sé às 17h30min da tarde. Sorria para idosas e não entendia por que elas me olhavam com cara de desconfiança. Ligava para meu pai dizendo que aqui, em São Paulo, as pessoas não tinham alma. Aí o braço me tocou e meu mundo caiu. Um dia inteiro na rua vendo pessoas atrás de pessoas, e só fui parar para sofrer e refletir sobre uma em específico porque o braço dela tocou o meu. Eu tinha transformado tudo em coisas, da mesma forma que me 'coisificaram' desde o primeiro momento. Caráter Blasé adquirido com sucesso.

Aquele braço me tocando na van clandestina foi uma verdadeira epifania.

Eu era o sujeito do Simmel. Eu era o Caráter Blasé. Eu era a pessoa de São Paulo que não tinha alma, tão desacostumada a pessoas, tão desacostumada ao ser humano, que se deixou enlouquecer por um contato tão simples como um tocar de braços. Aquele braço tinha me tirado da bolha. Aquele braço me tornou gente, e a tornou gente. Aquele braço me fez entender como a cidade nos muda, como nós nos adaptamos a ela, como começamos a ver as pessoas da forma mais distanciada possível – tão distantes que era como se não existissem, como nós. Quais são as histórias das pessoas na rua? Quem é aquela mulher correndo? Quem é o senhor sentado?

Quem sou eu, tão desacostumada ao outro, que saio do meu equilíbrio com um tocar de braços?

O Caráter Blasé é uma defesa, uma forma de fazer com que as pessoas consigam viver em sociedades com muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo e não pirar. É como um desligar de cérebro, um foda-se inconsciente para o mundo ao seu redor. Nada mais importa e nada mais incomoda, desde que não lhes toquem com leveza. Me surpreendi ao reconhecer meu eu Blasé. A sociologia tarda, mas não falha. Porém, estava na hora de baixar um pouco mais as defesas, me deixar viver, humanizar as pessoas ao meu redor, entender quem eu sou, onde estou, como vivo, com quem vivo. Absorver, observar. Depois desse dia, a imaginação fluiu muito mais rápida. As ideias chegavam com facilidade, porque eu estava atenta, de olhos abertos de verdade, buscando tocar vários braços por dia – de maneira figurada, afinal, perseguição é osso.

 

 

 

 

 

*Tarantinizadas: cenas que remetem ao estilo de filmagem do diretor Quentin Tarantino, com muito sangue, morte e violência. "Vem de monte e passam de uma vez, tão grandes que a gente nem sente."

 

 

 

Fotos: Vtao Takayama