"É claro, portanto, que a escolha do objeto deve ser decidida apenas por uma vibração correspondente na alma humana."

- W. Kandinsky

 

 

 

Quanto mais eu demoro para escrever sobre meu passado, mais me afasto dele. Para entender quem me tornei preciso fazer uma viagem pelas lembranças e memórias de minha vida; pelas cidades que morei, as escolas que estudei, as amizades que fiz; a família que amo, os que aqui estão, e aqueles que tão logo partiram; todas as portas e janelas que abri e fechei, amigos que vieram e outros que sumiram; amores, paixões - às vezes mornas, outra hora viscerais, ainda assim, um capítulo à parte. A vida recria significados imediatamente após perdê-los, construindo, camada sobre camada, nossas memórias, nossos traumas, mistérios íntimos, poucos revelados, nossas vivências pessoais. Cada um de nós é uma porção de corredores delgados e infinitos, com prateleiras escondendo preciosidades dentro de livros de diversos tamanhos, pequenos e grandes, algumas talvez que serão esquecidas; outras voltarão constantemente em nosso caminho, para nos acalmar - ou, às vezes, nos enlouquecer.

Me dispus a percorrer os corredores de minha memória, após assistir um pequeno filme chamado La Maison en Petits Cubes - A Casa dos Pequenos Cubos. O filme mostra um mundo coberto pelas águas, que elevam-se com frequência - uma realidade não tão distante- e encobrem todas as cidades, obrigando seus moradores a construírem novos andares acima de suas casas, seguindo a subida das marés. Por fim, camada a camada, resta uma cidade cuja memória permanece submersa centenas de metros abaixo da superfície. 

 

Um evento inoportuno obriga o personagem a mergulhar em busca de seu cachimbo favorito que, por um deslize, vai ao fundo d'água. Neste mergulho, ele percorre suas antigas casas, que construiu e viveu antes que o nível da água inundasse por completo aquelas camada. A cada camada uma lembrança, um trecho de sua vida, um capítulo do livro cuja única certeza é seu início e fim, como se folheasse um album de fotografias. Foi o que decidi fazer. Mergulhar nas pistas do meu passado para tentar entender melhor quem é esta pessoa que me tornei, uma imagem mais clara deste quebra-cabeça de memórias.

Como trazer ao presente pedaços de nossas vidas sem torná-los apenas anedotas? Como seria aproximar instantes, experiências passadas, cores, texturas, ao presente para que sejamos pessoas completas? O tempo parece escorrer por entre os dedos a cada esforço que fazemos em tentar conter o inevitável deslizar dos dias. Esse esforço só nos faz sentir mais profundamente a nossa plena incapacidade de que, ao longo de nossa vida, nosso passado torna-se apenas uma anedota para construirmos uma visão mais clara de quem somos no presente.

É curiosa a dificuldade em contar minha história, sabendo que sou alguém que cria narrativas para cadeiras e objetos encontrados na rua com certa facilidade. Construir anedotas para objetos talvez foi um modo de me proteger das próprias anedotas que criei sobre meu passado. Possivelmente, são energias que reverberam destes objetos diretamente para minhas memórias; para quem eu fui, e quem estou tentando resgatar.

Por enquanto, tenho só um gif da minha vida em imagens. Quem sabe no futuro terei ela de volta. Não busco nostalgia -tal sensação de desamparo nunca me trouxe conforto algum- procuro substâncias, sensações, e experiências que remetem à parte mais sensível da minha vida. Um pôr do sol entre gotas de chuva, caminhar descalço na grama ensopada, guerra de goiaba no quintal de casa, sensações que fotos quaisquer que forem, jamais trarão de volta.



Fotos e texto: André Romitelli

 

 

Votação Meio-Fio

Depois das trocas de inspirações, histórias e experiências chegamos a uma nova fase do Melissa Meio-Fio: a exposição de ideias. Os Refletores foram convidados a desenvolver um projeto autoral que revelasse suas singularidades e devolvesse um pouco da força criativa que São Paulo oferece diariamente. Orientados por um Conector, eles receberam a chance de olhar para si mesmos, suas expressões e potências e criarem algo que refletisse seu percurso até aqui.

Descubra os projetos dos refletores e vote no seu favorito, 3 deles serão escolhidos e materializados em 2017