"Lá estava eu, reprimida e agitada, saltitante pela escola a caminho da pequenina biblioteca, lugar que me protegia e isolava da chatice insuportável da normatividade do interior de São Paulo. Tantos livros abarrotados, sem quase ninguém que os lesse... Quantas vezes chorei sozinha, agoniada, apenas com meus amigos Shakespeare e Moliere. Quantas personagens! Naquele dia fatídico do começo dos anos 2000, eu entrei na biblioteca vestida com minha calça bag com milhões de alfinetes (isso mesmo, uui, medo) e uma camiseta com estampa militar e cheia de bottons (os anos passam, graças a Deus). Triste e mortalmente deprimida, eu estava enclausurada em uma realidade brutal: a de ser massacrada por sequer tentar ser eu mesma. Olhava, olhava e nada me despertava o interesse. Até que uma maravilhosa mulher, elegante e distinta, chamou-me a atenção. Seu retrato nas costas do livro me inspirava sabedoria e finesse, algo que não havia muito à minha volta.

Lygia Fagundes Telles era seu nome. Seminário dos Ratos era o nome do seu livro de contos.

Morava muito perto da escola. Voltei correndo. Cheguei em casa, me tranquei no quarto com meus posters da Naomi Campbell e do Gerald Buttler e fiquei de cuequinha, com as perninhas balançando para cima... Mal comecei a ler e já estava em pé andando de um lado para o outro. O que era aquilo? Brilhantismo, genialidade? Arte. Mudando minha vida. Enlouquecendo-me, fervendo-me o sangue, arrepiando-me a espinha. Os contos eram fantásticos, extraordinários. Eu nunca tinha lido nada igual. Pela primeira vez eu notava que a realidade não era feita só do presente, mas sim por trilhões de subjetividades, misticismos e simbologias. A vida não era só a vida, mas sim um portal místico para a existência.

Foi Lygia que me apresentou à mais dilacerante mulher... quer dizer, tigresa... quer dizer... não sei. Tigrela!

Refinada, sentimental, temperamental, melancólica, obsessiva, jovem, expressiva, dramática, ciumenta... fiquei fascinada, deslumbrada. Eu tinha que ser aquela animalesca criatura que fazia uma eterna metáfora da atitude, força e fragilidade dos desejos femininos por liberdade e ferocidade.
Foi a Lygia que me apresentou a quem eu queria ser.
Obrigada, Lygia, por ter me apresentado à minha melhor amiga, à minha musa, ao MEU EU."

 

 

 

 

Glamour guarda seu livro de contos em sua casa, na Lapa.

 

 Fotos: Vtao Takayama