"'Será que os patos se incomodam de ficarem molhados?'

Estava calor, eu estava embaixo do sol do meio dia em um sítio no interior de São Paulo encarando os patos do lago enquanto me distraia (ou tentava) do fato de que teria que ficar mais umas 5 horas ali. Em silêncio. Sozinha e sem qualquer recurso de distração. Acompanhada de mais outras 20 pessoas (sozinhas, em silêncio), eu teria que, inevitavelmente, parar de pensar nos patos e olhar para dentro de mim mesma. Junto com os conectores e refletores, eu senti na pele o que eles viveram durante um workshop de 2 dias com a artista e colaboradora do Instituto Marina Abramovic, Paula Garcia. E, junto com os conectores e refletores, eu não voltei a mesma.

 

Eu penso nos patos e nos outros, e na vida dos outros, enquanto listo todas as coisas que tenho que fazer e contas para pagar (para sobreviver no mundo dos outros) - por que, deus, existem tantos mosquitos? Eu sempre respiro tão alto? - e como se fosse uma das noites em que o cérebro não desliga junto com a luz do abajur, elas começam a vir. As vozes. As vozes que se fortalecem da ausência do 3G e que se unem em um coro tão poderoso quanto às obras de São Paulo que te fazem acordar para vida real. A vida dentro de você. 'Você nem sabe fazer isso', 'você é um lixo', 'você tem Alzheimer e tudo em você está começando a se apagar', 'todo mundo aqui te odeia' e o que mais que elas repetem desde que tenho 5 anos - e um trauma ou outro. Os erros, as fraquezas, o mais feio e mais escuro dentro de nós, que nos fazem sentir mais sozinhos e diferentes - e justamente nos faz iguais - , te levam para um lugar tão terrivelmente assustador que parece perdoável deixar seu caminho escondido.

 

Os gregos diziam que tudo que é bonito de verdade - tão lindo que tira um pouco nosso ar - é carregado de terror. É assustador que algo possa nunca ser igualmente tocante e é perturbador que aquilo possa deixar de existir. Aquilo te faz por um segundo perceber a realidade mais inerente do mundo. E eu, com ou sem apoio dos gregos, diria que a reversa também possa ser dita; tudo que é assustador é envolto por beleza. O poder de simplesmente nos fazer sentir - seja medo, amor ou puro terror. Depois que sentimos, não tem mais volta.

E por que temos tanto medo de não voltar?

Ficamos assustados no meio da rua e queremos voltar para casa, queremos conforto, longe da dor, um quentinho. Mais uma rodada no instagram para dar sono, mais uma conversa sobre a vida dos outros, os patos ou sobre todas as verdades que já são tão mecânicas que nem dói mais, 'é culpa do meu pai', 'sou controlador', 'tenho medo de amar'. Quais são realmente as coisas dentro de nós que se olharmos não tem mais volta? 

 

'Eu quero ver você explodir'. Foi o que a Paula Garcia falou para o Zé Vicente durante uma das conversas que aconteceram ao longo desses dias. Ela queria ver sua arte, suas fotografias e poesias urbanas em escalas grandes, assustadoras, impossíveis de não serem vistas. Escancaradas. E tudo fez sentido, nada mais poderoso (e raro) que uma palavra que traduza um sentimento. Tem que ouvir e ouvir e ouvir essas vozes até precisar gritar. Até você não conseguir mais segurar e não ligar a mínima para os outros - aí você explode. Explode todas suas verdades em um potência descontrolada.

Explosões são quentes e luminosas e demandam ser vistas - temidas. Nossas peles são impermeáveis à chuva mas humanamente vulneráveis ao calor.

Não ao quentinho, mas ao desconfortável, insuportável, ao que machuca o olho e que altera toda a vida que estava ao seu redor. Todos sentimos uma explosão.

'Arte tem que ser ação e reação'. Ao explodir, não tem mais volta, aquilo não é mais seu, é nosso. Vociferar a verdade e sentir as palavras escorrendo de você e preenchendo o silêncio com um som que jamais fará o caminho de volta, é aterrorizante. Tem que dar medo tirar de nós e tem que ser ridiculamente bonito para irromper no espaço do outro. Se os patos gritassem quando ficassem molhados, eu reconheceria seu incômodo.

Então, se eu aprendi uma coisa nos dois dias de silêncio e trocas e muito muito medo é: queridos, explodam. Explodam para os outros e suas vozes, explodam nos outros, explodam em si mesmos. Não existe um caminho de volta quando você não é mais o mesmo."

O workshop aconteceu em São José dos Campos, no interior de São Paulo e foi idealizado pela equipe Meio-Fio em conjunto com a artista, pesquisadora e colaboradora do Instituto Marina Abramovic, Paula Garcia. A ideia era que o encontro inspirasse e explorasse os processos entre arte e vida de cada refletor e conector. Além da imersão do universo de cada um pelo silêncio, foram discutidas as potências e fraquezas pessoais e as maneiras de fortalecer seu trabalho - focando nas verdades e descartando aquilo que não é tão explosivo.




Texto: Laura Zamboni (Equipe Meio-Fio)
Fotos: Vtao Takayama

 

 

Votação Meio-Fio

Depois das trocas de inspirações, histórias e experiências chegamos a uma nova fase do Melissa Meio-Fio: a exposição de ideias. Os Refletores foram convidados a desenvolver um projeto autoral que revelasse suas singularidades e devolvesse um pouco da força criativa que São Paulo oferece diariamente. Orientados por um Conector, eles receberam a chance de olhar para si mesmos, suas expressões e potências e criarem algo que refletisse seu percurso até aqui.

Descubra os projetos dos refletores e vote no seu favorito, 3 deles serão escolhidos e materializados em 2017