"Quando o pessoal da i-D entrou em contato comigo para participar da série Inside The Beauty com a Grace Neutral, eu tive dois pequenos ataques cardíacos.

O primeiro causado pelo meu amor à revista e, o segundo, causado por saber que eles viriam para o Brasil, falar sobre nós. Que puta oportunidade. É bom quando os gringos vem pra cá apontar nossos problemas. Somos uma sociedade que valoriza MUITO a fala estrangeira. Tudo que vem da gringa é bom, tudo o que vem da gringa é interessante, tudo o que os gringos falam é coerente. Então se as gringas e os gringos maravilhosos da i-D quiseram vir pra cá falar dos problemas em toda a construção de beleza no Brasil: Amém!

 

Nos estudos de gringologia conseguimos concluir que a visão que nossos interlocutores estrangeiros, de todas as partes do globo, mantém sobre o Brasil é um tanto quanto romantizada. Aqui é a terra da diversidade, todo mundo se dá bem, curtição, verão, sol, calor, caipirinha, mulatas, índios e mosquitos da floresta amazônica portadores de doenças ainda não catalogadas vivem harmonicamente nas grandes cidades.

 

Mito da democracia racial adquirido com sucesso. Quem é o Brasil? Quem somos nós aos olhos dos outros continentes? O que é essa terra de ninguém? Quem são seus habitantes? Quantas sambadas dão? Em que barracos vivem? Quantos pandeiros tocam por dia? É foda ser folclorizado, ainda mais quando se é mulher negra e se é responsável por carregar uma das construções mais cruéis sobre o Brasil: a mulata exportação.

 

Quando o pessoal da i-D me explicou qual seria a pegada da série Inside the Beauty aqui no Brasil e o que eles estavam dispostos a desmistificar, anjos cantaram. Quão importante é ter um veículo de circulação mundial, que captura milhares e milhares de jovens ao redor do mundo interessado em entender e mostrar o Brasil como ele é? Em todos os seus problemas e contradições? Foi importante.

Brasil não é bunda, não é peito, e por acharem que é, e que esse é o tipo ideal da mulher brasileira que estamos onde estamos.

Com tantas mulheres sofrendo em seus próprios corpos, arriscando suas vidas por intervenções cirúrgicas ou então definhando dentro de sua baixa auto-estima quando não tem dinheiro para tal.

 

Fiquei muito feliz por ter feito parte disso, por ter contribuído de alguma forma, por fazer parte de todo esse movimento poderoso que está ocorrendo no Brasil. Foi foda ter falado com uma mulher muito diferente de mim, e mesmo assim ver que ela me entendia e vice-versa. Amei demais ver várias amigas minhas e pessoas que eu admiro participando dessa mesma série, expondo suas falas e seus pensamentos, mostrando a força dessa geração de mulheres brasileiras, que está cansada dos padrões e cheia de força para mudar.

 

Assista todos os episódios da série (inclusive o segundo, com participacão das refletoras Tracie e Tasha Okereke), é importante e você vai adorar."

Créditos: i-D