Existe uma certa magia em perceber como as coisas são feitas. Livros, comidas, objetos, roupas. Estamos acostumados a ver produtos prontos e é interessante (senão fundamental) entender os processos por trás deles. Entre o que seguramos na mão e passamos no débito ou crédito, estão o nada e todas as etapas que permitiram aquilo existir. Cada inspiração foi reparada, cada palavra foi pensada, cada ingrediente, escolhido, cada material, preparado, cada estampa, desenhada. Toda criação carrega consigo uma história e a energia de todas as pessoas que se envolveram com ela. Tempo, ideias, ritmo.

 

Ontem, no Minhocão, vimos 40 pessoas colocando suas energias em uma só história: um tecido vivo idealizado pelo nosso refletor e artista-tecelão Alexandre Heberte.

 

Você já viu um tecido ser feito? O vaivém, o sobe e desce, a criação de uma superfície a partir do entrelace de linhas. E, ontem, com pessoas, panos e 10kg de retalhos descartados pelas lojas do Bom Retiro, Alexandre fez arte a partir do entrelace de energia. Oitenta mãos concentradas em um só lugar, em um só ritmo, cantando a mesma música.

"O mais precioso é que tudo isso seria lixo" diz Gustavo Silvestre, estilista-tecelão que apoiou Alexandre e que recolheu, um a um, os retalhos na porta das lojas. O resultado final da experiência foram diversas tessituras deixadas de legado para o viaduto. Mas poderia ser qualquer coisa, uma capa de sofá, uma rede, um tapete, um casaco ou roupas de altíssima alta costura como, sugeriu Gustavo Silvestre ao lembrar da última coleção de Viktor & Rolf. Um casaco comprado por mil dólares de um grande estilista carrega além de seu valor, a história de todos os processos.

Quando repensamos os caminhos que levam até um produto final, percebemos o quanto de vida cada uma das criações pode levar. Como o olhar de um criador importa, quanto o tempo dedicado ao seu trabalho é fundamental. Os refletores e estilistas Apolinário e Aline Tima, já falaram um pouco sobre isso em posts passados, e vale a leitura. Como diria Nátaly Nerisomos todos todos feitos de processo.

 

 

A intervenção "Tecido Coletivo" foi realizada no dia 12 de outubro no Minhocão

 

fotos: equipe Meio-Fio, Carol Marim, Flor Vianna