“‘Alexandre, como é o seu processo de criação? Quanto tempo algo demora para ficar pronto?’

Essas são duas perguntas frequentes, e as respostas estão intimamente conectadas ao que chamo de pulo do gato.

 

Acho que isso acontece com todos: ora o processo criativo é intuitivo, ora é racional. Às vezes, o objetivo aparece na mente, você seleciona as técnicas e matérias-primas necessárias para a execução, e faz. Simples. Outras vezes, você não tem nenhuma ideia na cabeça e, ainda assim, precisa criar – e vai. O exercício de manipular fibras e fios com a disciplina da atividade diária gera descobertas de composição, novas possibilidades. Muitos trabalhos ficam incríveis ao que parece ser 'ao acaso' porque, mesmo sem um projeto específico, esse fazer manual, orgânico e muitas vezes repetitivo produz inovações inesperadas, resultado da técnica que você passa a dominar 'do nada' – mas nem tão 'do nada' assim. Você descobre que juntar isso com aquilo pode dar samba porque conhece o seu trabalho. E se você não sentar todo dia com ele, feito ritual, dificilmente avançará.

 

 

Um escritor que escreve diariamente no mesmo horário, sentado ali, no seu canto, produzindo, no final terá escrito coisas boas ou não, porém – com certeza – sua mente vai reconhecer as tentativas e perceber que ele não ficou parado. Algum dia, tal esforço será recompensado. Mesmo que pareça 'do nada'.

O treino é importante e a rotina é fundamental para a atividade criativa.

Não falo da rotina como hábito repetitivo, mas sim de uma rotina estimulante, aquela que faz você acreditar que seu trabalho só amadurece depois de anos. Não tem outro jeito de se fazer bem feito: dedicação é lei. Essa história de 'estou sem inspiração para criar' é desculpa, nada mais. Vá aprender algo novo; preencha as horas com aquilo que realmente te toca. Duvido que ao terminar de ler um bom livro você não se sinta inspirado.

 

A palavra, do inglês, background pode ser traduzida como um conjunto de condições, circunstâncias ou antecedentes de uma situação, acontecimento ou fenômeno. Ou, ainda: experiência, contexto, meio, alguma coisa que está discreta, escondida, imperceptível, na obscuridade.

Os antecedentes de uma situação são aquilo que formam o seu repertório particular. O pulo do gato é como você lida com o seu background.

Não gosto de responder quanto tempo levo para terminar um trabalho. Respondo que não penso nisso. Se pensar muito, você não faz. Quando o gato se prepara para o pulo, ele faz um sambinha com as patas traseiras - uma série de análises para que suas intenções sejam bem-sucedidas. Geralmente alcança a mesa, mas se calcula errado, já viu…

Você precisa criar seu pano de fundo, seu repertório, sua série de análises que antecedem o pulo. Precisa prestar atenção nas coisas que te cercam, no que te inspira, na maneira como olha o mundo ou se relaciona com os instrumentos de trabalho. Esse pano de fundo são as circunstâncias criadas com o seu poder de escolha, pois o que você faz na sua vida pessoal se reflete no seu eu-profissional. A experiência do ofício tira da obscuridade coisas que nem mesmo você sabia que sabia fazer. Habilidade escondida nada mais é que falta de coragem para começar. Você quer muito aprender a cozinhar, todavia nunca levantou e foi aprender.

Um dos maiores vilões de sua vida é a capacidade que sua mente tem de criar desculpas e argumentos para deixar de fazer algo.

Muito se fala sobre viajar para se renovar (ou tirar férias, o que, para muita gente, só acontece uma vez por ano). Voltar a lugares incríveis é sempre inspirador e ativa a cabeça. Porém, o que se faz entre uma viagem e outra? Como manter renovado esse gás que o dia a dia consome? Como é a sua rotina? Todo contexto de vida influencia os processos de criação. Desde fenômenos que podem ser visíveis, como assistir a um bom filme e sair do cinema flutuando, àqueles mais sutis, imperceptíveis aos olhos não treinados, todos os dias você está criando seu pano de fundo e, sem saber, se preparando para a hora do pulo. Questione seus hábitos, seus atos mecânicos, o que você gosta. Se você vê as coisas sempre do mesmo jeito, isso é uma problemática que terá de ser solucionada com rigor.

Eu, por exemplo, funciono muito bem tendo vários trabalhos em andamento. Pela manhã, trabalho nesse tear; de tarde, vou para aquele outro. Posso ainda utilizar outros suportes – o mais importante é que se tenha começo, meio e fim, e que se faça isso todos os dias. Uma coisa é fazer trabalhos pontuais – no meu caso, para moda ou decoração –, cuja metodologia de mercado estabelece prazos, datas. Nesse caso, noção de tempo é fundamental. Você aceita ou não o desafio da produção. Outra coisa são as criações de objetos artísticos, em que tempo é subjetivo. Esse tempo é só seu. Pode durar dias, pode levar anos. Ás vezes, mesmo que dure uma eternidade, você consegue saber para onde está indo. Isso não é um problema. A questão são suas certezas internas. Quanto mais dúvida de si, mais chances de o pulo dar errado.

Há pessoas que são bagunceiras e funcionam muito bem no meio daquele caos aparente; outras, só funcionam se tudo estiver em ordem e limpo, com cada coisa no seu lugar. Cada um estabelece um sistema. Algumas pessoas gostam de criar sozinhas; outras precisam de outras pessoas para funcionar; etc.

O processo de criação pode ser orgânico ou racional, fruto de diferentes estudos e elaborações – mas não pode ser separado do treino, da repetição e do saber o que se quer dizer com o trabalho.

Minha dica é: crie e reconheça um conjunto de circunstâncias próprio. Aprenda que a criatividade não é linear e veja o que deve ficar em primeiro plano (em foco) e o que deve ficar em segundo plano. A cada momento temos de selecionar, fazer escolhas, analisar o espaço.  

 

Veja com outros olhos. Afaste-se da coisa e depois volte. Escreva pela manhã, leia e releia. Saia. À noite, leia de novo em voz alta, releia. Repito: procure os melhores meios que conseguir, siga adiante e arrase!

 

 

Lembre-se, o pulo do gato é seu jeito particular de fazer as coisas acontecerem – é como você estabelece seus processos, métodos. O gato só pula depois de reconhecer todas as análises de espaço, tempo, distância e condições que envolvem o movimento que será executado. Ele é astuto, não tem pressa, e pode passar horas analisando uma situação, contemplando o objeto sem quase nunca desistir. 

O gato entende seu corpo, sua energia, nunca vai além da própria capacidade; se vê que não consegue, dá meia volta e inventa outra coisa para fazer.

E, se for o caso de ainda viver na dúvida, peça ajuda. Estou aqui."

 

 

 

 

Fotos: Vtao Takayama