Que tal tirar um minuto para relembrar todas as ideias que você deixou de lado por não saber como levar adiante?

Os sonhos de bares, cafés, bandas, shows de jazz, exposições itinerantes e planos mirabolantes que foram engavetados pelas mãos calorosas das desculpas de "ano que vem penso nisso", "precisa conhecer as pessoas certas", "equipamento é muito caro", "tô sem dinheiro", "não tenho tempo", e qualquer outra fase patenteada pelo Abandonadores de Sonhos Anônimos. É por essas realizações e tristezas que, quando você se pega reclamando que não tem dinheiro e que já estamos quase em 2017, tem que ir num festival de graça organizado por duas meninas do Jardim Peri que se vestiram a vida inteira com 20 reais.

 

Sim, fui no festival Selo, realizado no último dia 15 a céu aberto no CCJ (Centro Cultural da Juventude) da Vila Nova Cachoeirinha à convite das refletoras Tracie e Tasha Okereke. Através do seu coletivo (soon-to-be império) Expensive $hit e junto com os amigos do coletivo Versus, elas estruturam o evento inteiro em apenas uma semana. O que começou com aquela conversa típica de bar "mano, a gente queria muito montar um festival" seguida por "não acredito! A gente também!", criou vida a partir do impulso certo. O padrinho delas estava trabalhando com a Secretaria dos Direitos Humanos e a reputação de suas festas já tinha levado mais de 1000 pessoas para dançar na favela. Foi só começar a fazer ligações.

 

As 8 horas de música - rap, trap, dancehall, house ou "all black everything" como eles chamam - reuniram 5 coletivos diferentes, todos formados por jovens que atuam na cena cultural negra e periférica de São Paulo (e cujas playlists merecem ser escutadas). Além do Expensive $hit e Versus, tocaram Tipsy, Recayd e Outro Planet - todos só pelo prazer de ver a galera dançar. Cerveja a 4 reais, evento aberto, música boa e a liberdade de não ter que enfrentar filas gigantescas para ver um show acontecer. Eles criaram um festival da favela para favela e conseguiram materializar tudo o que as gêmeas acreditam; um esforço pela valorização de suas origens e construção de autoestima e oportunidade. Foi lindo ver isso de dentro, ao invés de ler algum lugar do Facebook e dar um like. Tracie e Tasha empolgadissimas pulando no palco, a música mudando de funk para hip hop dos anos 00 enquanto o sol se punha e todas aquelas meninas que sabem fazer twerk se mexendo sem parar.

São Paulo é tão grande que faz a gente esquecer que podemos circular por todos esses lugares.

Como todo festival que se preze, o legado de pessoas estilosas que frequentou fica registrado em fotos. Dale gente com estilo de quem se inspira nas ruas, videoclipes e encartes de CD - pessoas que fazem parecer ser fácil se vestir desse jeito, autêntico e atemporal. A conectora Chantal Sordi (que também é editora de moda da Elle e me fez reparar em todos esses estilos) fala melhor: "Desde os meninos com uma pegada bling-bling, até umas garotas skatistas lindas e uma turma de meninas usando bege dos pés á cabeça (uma tendência que anda crescendo por aqui, tenho reparado)".

"A gente ainda vai levar todos os pretos para o topo. O festival ainda vai ser gigante"

é o que gritava Tasha em meio ao som e aos sonhos (jamais engavetados) de chamar todos os negros que querem fazer diferença - no Brasil ou no mais underground de Los Angeles e Nova York - para a próxima edição do festival. Acho que é isso que acontece quando finalizamos uma ideia, ela cresce.

Fim do seu minuto para relembrar todas as suas ideias engavetadas - e uma última frase da Tasha (caso você ainda não tenha sentido nada): "Para os próximos passos não temos limite, é subir até mudar o mundo. Queremos fazer moda, música, arte e história. Englobar tudo. Queremos fazer o dinheiro dos pretos voltar para os pretos". É importante fazer alguma coisa com as suas ideias, elas importam.

 

 

 

Texto: Equipe Meio-Fio

Fotos: Vtao Takayama