"Existem projetos e pessoas que a gente acaba tendo uma sinergia automática. De alguma forma as coisas se unem, se ajeitam, fazem sentido e - fazem tanto sentido que - precisam ser colocadas juntas.

Geralmente existem coisas que casam muito comigo. Coisas que eu amo, que eu venero, coisas que estão muito ligadas à minha subjetividade e a identificação acaba sendo pura consequência. Mas imagina o que seria se eu transformasse os meus projetos em uma vazão sem filtro de tudo o que me define e penso, sinto e faço?

Ao ter me proposto desenvolver vídeos para o YouTube decidi que meu canal não seria sobre mim. Quer dizer, não necessariamente e diretamente sobre mim. Quem eu sou, minhas vontades, posicionamentos e visões de mundo seriam fundamentais para a construção do meu projeto, mas não seriam o seu fim. Quando decidi que não seria sobre mim descobri que teria que ter um cuidado a mais ao elaborar e refletir sobre os meus conteúdos. Eu teria que enxergar pelos olhos dos outros, pensar pela mente alheia, fazer um movimento muito difícil de observação distanciada e tentar compreender todo o meu processo como projetante de um resultado descolado de mim.

Quando eu falo sobre me afastar e olhar as coisas de longe, eu digo isso de maneira literal.

Eu realmente imagino meu projeto e os planos que tenho para ele em uma mesa bem grande e, então, me imagino voando em cima dela, entre as nuvens, olhando-o de cima e entendendo quais formas meu projeto está tomando ali em cima dessa mesa. Quando estou entre as nuvens e vejo de cima, enxergo eu mesma - na mesa, em versão miniatura - enquanto ser subjetivo dentro das coisas que quero realizar. Essa verão está abraçada com todas as suas paixões, todos os seus desejos, todos os seus gostos esquisitos e banais. Quando o eu das nuvens olha para o eu indivíduo na mesa, imagina o que pode ser retirado dali e o que fará sentido sem ele.

Se eu pegasse emprestado essas paixões do meu eu subjetivo sobre a mesa, colocasse ao lado do meu projeto e me retirasse de lá, ainda faria sentido? (dentro, é claro, dos nossos próprios parâmetros de sentidos estabelecidos antes e durante seu processo criativo)

 

Foi por isso que pedi para que Alexandre Heberte se juntasse a mim no meu canal. Me imaginei enquanto Nátaly na mesa das subjetividades empolgada, pulando em volta do trabalho do Alexandre de tão maravilhada que estava, e ai imaginei o Afros e Afins (meu canal no Youtube e projeto de vida) ao lado do Alexandre - e me retirei. 

Quando me retirei, o Alexandre continuou fazendo muito sentido para o eu mais calculista que observava das alturas.

Esse é o movimento que faço sempre que tenho que fazer escolhas para meus projetos, sempre que quero buscar entender o que é, ou não, relevante para o Afros e Afins. Pode parecer um movimento muito simples, mas acredite, não é. No começo pode até ser, mas conforme a vida vai passando, você vai rodando lugares e conhecendo pessoas e realidades, as coisas vão ficando cada vez mais confusas.

O Afros e Afins se propõe a comunicar.

Esse é o objetivo do canal: tornar alguns conhecimentos compreensíveis dentro e fora de sua realidade de origem. E "tornar algo compreensível fora de sua realidade de origem” é a frase que ecoa na minha mente sempre que vou criar um roteiro, pensar um vídeo novo ou preparar uma fala.

Quem são as pessoas que vão receber aquilo? Eu não sei.

De onde vem as pessoas que vão entender aquilo? Eu não sei.

Se eu tomar alguns questões enquanto premissa básica por serem demasiadamente simples para mim, fará sentido pra quem estiver me ouvindo? Provavelmente não.

O movimento é sempre se enxergar de maneira distanciada, porque sempre supomos que todo mundo gosta e entende a vida e as coisas da mesma forma que a gente.

Seu único parâmetro para responder às perguntas acima, uma vez que tem desconhecimento quase absoluto de quem serão seus interlocutores, é o seu projeto. O que é o seu projeto? Que coisas cabem ou não cabem nele? O que se fará compreensível ou não? O seu objetivo é a compreensão? Pode ser que não! Se não for, o exercício é outro. Meu objetivo é me fazer compreender, e fazer com que meu projeto seja compreendido, por isso, o movimento é sempre esse: imaginar as coisas que faz descoladas de você mesmo.

Foi ter imaginando Alexandre Heberte descolado de mim enquanto um ser subjetivo entusiasta do trabalho dele e, chegando na casa de cada uma das pessoas que assiste o Afros e Afins, que gravei esse vídeo. Assista que você vai entender o porquê.

Alexandre Heberte é um artista incrível que, com certeza, vai te inspirar tanto quanto me inspirou. Ele não faz sentido só porque talvez eu tenha algum interesse subjetivo pelas coisas que produz, Alexandre faz sentido por si só, e vai te ensinar e te inspirar muito seja você um amante dos trabalhos manuais como eu ou alguém que nunca refletiu sobre isso na vida."