Durante esses meses de projeto Meio-Fio, eu estive em busca de um aprimoramento da minha produção artística. Aqui, foi o início da conscientização daquilo que eu mesma estava desenvolvendo como artista em São Paulo e como eu poderia potencializar minhas ações a partir das características já existentes da cidade.

 

Com isso, durante o desenvolvimento do meu projeto Horda Anônima (já conhece? já votou?), tive uma conversa com a nossa oráculo Paula Borghi e chegamos a conclusão de que eu deveria buscar mais conhecimento teórico para conseguir enxergar, profundamente, os valores e a importância do meu trabalho. Foi assim que ela me apresentou o João Gomes, que estuda e ministra cursos sobre como a multidão se insere na sociedade contemporânea. Esse mestre de alma benevolente topou me dar algumas aulas e clarear minha mente sobre meu próprio trabalho. Falamos de temas que dialogam com meu trabalho, como o conceito de multidão, horda, anonimato e dispositivos. Temas que também quero trazer para cá, sendo o primeiro deles: Multidão.

 

Quero compartilhar com vocês os pontos importantes que conversamos e estudamos sobre a multidão para dialogar sobre a necessidade de ressignificar esse termo que sempre sofreu a tentativa de ser definido e categorizado, quase sempre de uma forma negativa.

A multidão não é definida, ela sempre foi vista como a sombra do social. Não tem definição sociológica e política. Os poucos que refletiram sobre ela, preferiram explorar sua potência. Claro, podemos encontrar algumas tentativas de definir o que é a multidão, como essa do Dicionário Caldas Aulete que consegue levantar mais questões sobre a tal do que propriamente defini-la:

A multidão, nesse caso, é definida a partir de julgamentos de valor e preconceitos, além de não definir satisfatoriamente na questão quantitativa. Quantas pessoas ou coisas fazem uma multidão? A definição mais aproximada seria que ela é um coletivo indefinido e incerto.

Uma coisa que temos certeza é que indefinição e incerteza não trazem muitos deleites aos sociólogos e estudiosos de políticas sociais, e, por não se saber muito sobre, ela sempre fosse colocada e subjugada de maneira negativa.

E uma coisa incerta e, assim, que não se controla, causa medo e dúvidas. Por isso, encontrar um lado positivo para a multidão virou um trabalho de filósofos, foi Antonio Negri que entendeu que a falta de definição traz potência ao termo:

E qual é a diferença entre multidão e massa? A massa, que tem uma definição semelhante à multidão, é diferente pelo fato dela ser unificada e homogênea. Levantei essa questão com o João e ele fez a seguinte citação:

 

"A massa é, convencionalmente, tratada como uma forma homogênea de reunião de pessoas ou como uma firma de coesão homogênea de qualidades de um coletivo (é o que significa falar em 'cultura de massa', ou 'opinião de massa', 'massificação' etc); ela poderia, sim, ser considerada - de um certo ponto de vista- como uma maneira de 'multidão' (ou isso que damos o nome de multidão) pela modo de se comportar, se apresentar ou se manifestar. É também um modo como os poderes estatais as rotulam, já que não conseguem definir ao certo e com precisão o seu real significado e impacto social."

 

Partindo desta afirmação, acho que posso dizer que a massa é uma forma controlada e estabilizada do encontro de pessoas, com a intenção de desindividualizar e unificar. A multidão escapa da tentativa de se estabilizar, e podemos constatar isso com a própria definição encontrada no dicionário acima. Ela não se estabiliza porque não se define, ela se constitui como subjetividades em uma constante interação produtiva e criativa.

Nós, como usuários e viventes da metrópole, devemos ter consciência que a cidade é a espinha dorsal da multidão e, se fazemos parte da cidade, somos nós a tal multidão.

Pode ser que essa percepção traga a sensação de que somos massa, mas, se potencializarmos a ideia de heterogeneidade da multidão, podemos aceitá-la sem preconceitos ou medos pois não necessitamos defini-la.

Acredito que devemos nos assumir como multidão para que não fiquemos sufocados com a massificação em que o estado tenta nos colocar com tanta força.

 Para finalizar, gostaria de citar o parágrafo do O Bem Estar Comum de Antonio Negri e Michael Hardt :

 

"A política da metrópole é a organização dos encontros. Isto requer, em primeiro lugar, uma abertura à alteridade e a capacidade de formar relações com os outros, de gerar encontros prazerosos, e assim criar corpos sociais com capacidades sempre maiores. Em segundo lugar, e talvez mais importante, requer que se aprenda a recuar das relações conflitantes e destrutivas e decompor os corpos sociais perniciosos que delas resultam. Finalmente, como tantos encontros espontâneos não são imediatamente prazerosos, essa política da metrópole requer que se descubra de que maneira transformar tanto quanto possível encontros conflitantes em encontros prazerosos e produtivos."

 

 

 

 

O projeto Horda Anônima faz parte da Votação Meio-Fio

Depois das trocas de inspirações, histórias e experiências chegamos a uma nova fase do Melissa Meio-Fio: a exposição de ideias. Os Refletores foram convidados a desenvolver um projeto autoral que revelasse suas singularidades e devolvesse um pouco da força criativa que São Paulo oferece diariamente. Orientados por um Conector, eles receberam a chance de olhar para si mesmos, suas expressões e potências e criarem algo que refletisse seu percurso até aqui.

 

Descubra os outros projetos e vote no seu favorito, 3 deles serão escolhidos e materializados em 2017

 

 

Fotos e imagens: Vtao Takayama e acervo pessoal