Depois de passar dois dias com os conectores e refletores em um sítio - falando sobre arte, medo, angústia, raça e até não falando nada -, a artista Paula Garcia sentou no aeroporto, tomou um gole de cerveja e voltou para casa, em NYC, com vontade de bater a cabeça na parede.

 

"Eu acho que quando a gente começa a ficar mais velho - e mais velho digo com mais experiência - vai dando uma sensação boa da maturidade, uma certa tranquilidade. Não ficamos mais tão loucos e saímos batendo a cabeça na parede. Mas, ter estado ali, com esse grupo e suas questões tão amplas e inquietas, eu lembrei que - porra é isso - é muito bom bater a cabeça na parede! E eu quero morrer assim. Com o instinto mais primitivo de out of control, que faz arrepiar o pêlo, não deixa a gente dormir de tanto pensar no trabalho e nas imagens e nas sensações que você pode viver. Eu voltei desse encontro com esse gás." 

 

Na volta, conversei com a Paula pelo Skype para entender suas percepções sobre o grupo e tentar transcrever para quem não estava lá a importância da vivência. Todos tiveram que enfrentar suas próprias cabeças e entrar em questões íntimas sobre a verdade daquilo que estão criando. Enquanto ouvia ela falar (e pensava como seria uma tortura escrever depois) foi lindo perceber como a sensibilidade de alguém afeta o outro lado. É impossível ser indiferente a algo que te atinge. A Paula sentiu (com) aquelas pessoas. Mesmo cercada de artistas de campos artísticos totalmente diferentes do dela, a troca foi real - intensa e profunda. Porque é isso que a arte faz, te sensibiliza. Segue, então, um pouco da nossa conversa e as reflexões de uma artista que se coloca no lugar do outro ao sentir tudo no próprio corpo.

 

"Quando recebi o convite para elaborar o workshop e comecei a descobrir essas pessoas - ler seus materiais, ver os conteúdos e suas expressões -, me deu frio na barriga. Eu percebi que iria tocar em campos que não são do meu domínio. Mesmo. Campo da moda, da música, youtube… Fiquei meio 'CARALHO'! E aí, ao mesmo tempo, lembrei que aquilo que eu faço, aquilo que eu gosto, é a performance. E performance é uma linguagem que flerta com teatro, com música, com cinema e com moda, é uma linguagem que interliga tudo e simplesmente te toca. O que todos esses campos têm em comum é isso, eles podem te tocar."

"Independente do campo ou da forma de expressão, temos que entender por quê a gente faz o que faz. Onde está a verdade naquilo? E não é para pensar sobre isso, é para escutar. É uma auto escuta para o seu próprio corpo e seu desejo mais interno de fazer alguma coisa que vai te transformar como ser humano."

"Sacrifício. É uma palavra que vai se perdendo para o imediatismo e é uma palavra fundamental. Se formos pensar nos artistas que são consolidados, reconhecidos - a própria Marina (Abramovic) - são pessoas que investiram e sacrificaram muito de suas vidas em seus trabalhos. É um desenvolvimento de longo prazo que vai formando um corpo de trabalho que depois de 10 anos é muito bonito de ver, mas que é um mergulho muito interno e profundo nas angústias, no medo - é prazeroso mas não é fácil. Ou rápido. E aí temos o contraponto de que os Refletores e Conectores tem uma dinâmica muito interessante com o imediatismo. Eles trabalham com redes sociais e todo seu trabalho de divulgação e conexão com o seu público se dá por esse caminho. E eles movem muito. O número de pessoas envolvidas é enorme. Eles são como 'pontas de lança' de um grupo, de uma pirâmide, e embaixo deles tem uma puta galera olhando e se inspirando, falando 'também quero me jogar e fazer', isso é muito forte."

 

"Hoje em dia, provavelmente, ninguém vai descobrir a pólvora. Já fizeram de tudo, já levaram tiro em performance, o lance é descobrir para onde você está indo. O que você está falando.

Eles já sabem quem são, mas eu quis que eles saíssem com questionamentos. Em um processo de desconstrução das armaduras e lapidação de suas potências, foi foda ver eles refletindo sobre suas zonas de conforto e resgatando a sensibilidade. Esses caras vem de um universo tão absoluta e profundamente rico e cheio de matéria para se explorar que não podem se deixar esconder atrás de uma persona e esquecer de olhar para o melhor que eles têm.

 

Uma coisa que gostei muito (muito) é como em tudo o que cada um deles faz tem a criação, tem pesquisa, a linguagem e todo o resto, mas, principalmente, tem uma ligação com uma comunidade, uma rede. Um grupo. Isso é foda. Você usa as redes sociais como um meio, não um fim. O fim é na festa, no show, na união. Na rua. Isso é revolucionário. O fim é real life, é o lugar de encontro, é onde tem o toque. É humano e não virtual. Quando estamos no campo da vida e do encontro você não se esconde. Tem textura, cheiro, olhar, tem clima, vento, conversa, natureza, concreto, ônibus. No fim, o poder está em colocar pessoas juntas."

E, é assim, depois das trocas de inspirações, histórias e experiências, depois de desconstruções e discussões sobre pluralidade, verdades e trabalho artístico que seguimos o meio-fio do projeto e chegamos em uma nova fase: a materialização de ideias. Todos Refletores foram convidados a desenvolver um projeto autoral que revelasse suas singularidades e devolvesse um pouco da força criativa que São Paulo oferece diariamente. Orientados por um Conector, eles receberam a chance de olhar para si mesmos, suas expressões e potências e criarem algo que refletisse seu percurso até aqui.


A partir da semana que vem, será possível navegar pelos 9 projetos desenvolvidos e entrar nessa nova fase do Melissa Meio-Fio, ainda tentando descobrir o que é a vida enquanto processo criativo.




Fotos: Vtao Takayama e Vivi Bacco (PB)
Video: Lucas Cabu e Duoglas Ferreira
Texto: Laura Zamboni (Equipe Meio-Fio)