"Hoje em dia eu consigo enxergar e entender as pessoas travadas, as que só pensam dentro da caixa.

Pessoas que precisam seguir um padrão, que vivem à margem de tendências, manipuladas e morrendo de medo de serem elas mesmas. Na minha opinião, parte disso vem da escola, muito além da criação. E falo isso pela minha geração, veja bem:

Eu e minha irmã sempre fomos muito interessadas em livros, revistas e quadrinhos, e, sem saber ler, ficávamos pedindo para a nossa mãe contar as histórias para gente - o que nem sempre rolava e quando rolava a gente achava que ela estava mentindo para ir mais rápido. Sim. Risos. - Foi por isso que aprendemos, até que rápido, a ler na primeira série. E lemos o nosso primeiro livro - juntas.

Lemos de ponta a ponta “Abusado” de Caco Barcellos, e desde então ficamos famintas por leitura e escrita.

Escrevíamos muita coisa, sem parar, histórias, diários, notas, enfim... E nunca esqueço que, na primeira ou segunda série, quando estudávamos na escola Clóvis no Boi Malhado (escola pública que não existe mais por abandono do governo. Era uma escola bem grande, com potencial e espaços incríveis, explorados apenas em época de eleições, triste... mas continuando) apareceu uma contadora de histórias. Eu lembro até hoje da cara dela, e de como foi um dos melhores dias da minha vida. Lembro do quanto gostei daquilo, e, ao mesmo tempo, lembro da grande decepção que foi esperar que aquilo acontecesse de novo.

A vida seguiu, a decepção passou e estávamos na escola estadual Pizão - onde tínhamos aulas de arte e literatura (literatura às vezes né). As aulas de arte consistiam, basicamente, em nos mandar copiar grandes obras. As notas eram dadas de acordo com a proximidade que seu desenho tinha em comparação a de uma obra de um artista “renomado” como Tarsila do Amaral e Picasso. Para mim, ensinar teoria e técnica da arte está ok, mas essa palhaçada sem sentido de, até o ensino médio, nos fazer tentar copiar um artista para nos dar uma nota, medindo a nossa capacidade por semelhança, nos fazendo pensar dentro de uma caixa e nos passando a mensagem de que pra ser bom temos que fazer algo igual ao de alguém que foi bem sucedido, mata a singularidade de qualquer um.

Ao invés de estimularem o conhecimento próprio e expressão, a liberdade, a interpretação de tal arte pela visão de cada um, as aulas de arte nos ensinavam a copiar.

Arte é singular, é a extensão do ser. Quem é alguém pra dizer que tal arte é boa ou não, se ela é uma criação única, não é mesmo? Eu tive que roubar livros para poder realmente ler algo que vinha de lá.

Esse não é um discurso anti-escola, muito pelo contrário, porque eu sempre estudei e estudo bastante. Ter conhecimento é poder, é arma poderosa! Esse é um relato do que me entristece, e do que eu não quero para os meus irmãos. Exigiam que eu, uma adolescente em crise, escrevesse todo ano pelo menos 3 vezes uma redação intitulada “Quem sou eu” e isso me matava.

Eu falava qualquer groselha para preencher linha, coisas que não diziam nada sobre mim ou minhas escolhas, coisas, tipo, “eu moro num bairro bla bla bla”. Porque eu ainda nem sabia quem eu era. E nem tinha que saber também - mas a pressão me fazia eu me sentir um lixo por não saber. Eu tive UM professor que respeitou a minha individualidade. O professor Marcelo de História na Escola Leme do Prado.

Eu acho que foi na sexta série, e ele foi o único que realmente me fez pensar - ao invés de decorar e copiar coisas. A escola como eu conheci me deprimiu porque ela basicamente me dizia que eu poderia escolher ser só uma coisa, que tínhamos que seguir um certo caminho para conseguir, "para ser alguém”, caso contrário. o resultado seria um só: o fracasso.

Ou seja, quando você não se encaixa em lugar nenhum ou em profissão nenhuma, você tem que aceitar, você é um fracassado.

Aí você corre para fazer qualquer coisa mais ou menos, algo que te dê o título de "alguém" na visão dos outros. Um curso qualquer, uma faculdade "por fazer" - ainda que, por dentro, te faça sentir mais como ninguém do que si mesmo. Nem sei dizer quantas pessoas eu conheço que fazem isso. Afinal, o que nos passavam era que não estavam nem aí para nós e, quando estavam, era mais uma coisa mais de controle do que amor ou uma mínima preocupação com o nosso desenvolvimento e sucesso real. Queriam fazer de nós o que quisessem - e eu e a Tasha não sabíamos o que queríamos ser, só sabíamos o que amávamos. Por um bom tempo eu me senti fracassada e perdida porque o mundo e os professores me diziam que eu não podia ser tudo.

O desencorajamento era constante. Não seria possível viver do que se ama, se pá não era nem importante saber o que se ama. Tudo que envolvia amor, virava um hobby. Eu não vi a minha escola fazer nem sequer um aluno acreditar em si mesmo - eu aprendi tudo com a liberdade da rua. Foi só a partir do momento que eu comecei a me conhecer, me desprender da verdade alheia e me aceitar, que ganhei uma convicção tão grande e entendi que eu não precisava querer satisfazer as expectativas que as pessoas colocavam em mim - e muito menos satisfazer elas e seguir imposições. Quem dorme comigo todas as noites e lida com a felicidade ou infelicidade que EU conquisto, sou eu. 

Eu não preciso saber exatamente o que eu quero e nem querer só uma coisa. Eu quero fazer muito. E eu vou fazer muito. Não importa se eu quero fazer uma coisa que ainda não existe.

Eu vou ser bem sucedida não importa qual seja a minha escolha. Desde que seja algo que realmente venha de mim, porque o que vem de dentro, nós entendemos. O que vem de mim, eu vou dominar.

Várias pessoas até hoje tentam me reprimir e me fazer sentir menor por não seguir o que elas julgam como “a coisa certa”. E eu agradeço a minha mãe que, com a criação repressora que teve, aprendeu a não nos limitar e nos deixar desenvolver nossa vivência. Aprendeu a me deixar ter meus amores, minha música, meu desenho, minha escrita, meu canto, minha dança e todas as outras coisas que vem de mim - e vão para o mundo todo. A minha mãe é responsável por eu me conhecer e me sentir tão bem, ser eu. Se eu dependesse da escola e de outras pessoas eu teria abraçado a falta de confiança e auto estima até hoje, eu seria só um “alguém".

Enfim, isso é apenas um relato do outro lado, e com todo respeito aos professores, a melhor professora pra mim foi a rua, a música e a minha Rose Rainha!"

Tracie e a irmã, Tasha, quando ainda não escolhiam as próprias roupas.

 

 

 

Fotos: Vtao Takayma e acervo pessoal