"Chegar até aqui exigiu sacrifícios e superação; uma luta comigo mesmo para lidar com vícios e maus hábitos. Mas teci meu caminho.

Comecei a trabalhar cedo. Primeiro com a família, depois em brechó em Fortaleza. Fazia tudo lá dentro, de montar a vitrine a passar pano no chão. Amava o Brechó Casa da Arte! Eu morava dentro dele. Uma casa enorme na Av. Costa Barros. Também fui funcionário público temporário, locado na Ação Social do Juazeiro. Participava, nessa época, da ONG Movimento Consciência Jovem, - que levava atendimentos, serviços básicos e, todos os domingos, programações culturais a algum bairro da cidade onde nasci, terra do Padre Cícero, no Vale do Cariri Cearense. Durante uns dois anos, simultâneo ao trabalho na Prefeitura, fazia, aos domingos, um programa de rádio na FM Comunitária, localizada no bairro Romeirão. Ia ao ar das 19h às 23h. Mais uma vez, fazia de tudo, sendo o responsável por deixar a FM no ar, botar a música e entrevistar amigos e convidados; do outro lado da janela, haviam moradores queridos e incrédulos quando aquele ser tocava Supermercado do Amor, da cantora cearense Karine Alexandrino, ou avisava que naquela noite só tocaria Caetano Veloso e Gal Costa. Dei aulas de passarela, automaquiagem e teatro amador, e produzia desfile no shopping da cidade ou em plena Praça Padre Cícero, lotada de romeiros nos festejos religiosos. Amava fazer cenários para os seminários da faculdade.

Por falar em estudo, papai queria medicina ou advocacia, mas parei na administração. No primeiro semestre quando me vi diante de introdução à matemática, estatística e economia – nada vezes nada eu com aquilo –, tranquei. Comecei turismo, mas a faculdade não era legalizada, e os alunos ficaram a ver navios. Já aqui, em São Paulo, logo que cheguei, passei no Vestibulinho da ETESP Fatec da Av. Tiradentes. Recém-chegado, sabia que a melhor maneira de entrar na cidade e conhecer seu ritmo e pessoas seria numa sala de aula. E, se não desse certo em São Paulo, um diploma e carteira de guia de turismo seriam muito úteis caso retornasse ao Nordeste. Atualmente, curso licenciatura em Artes Visuais na FPA, e estou no segundo semestre. É muito diferente fazer uma faculdade vinte anos depois da primeira tentativa. No curso certo, que se ama. Meu objetivo é me dar de presente um mestrado em História da Arte. Depois... Um passo de cada vez.

Tudo isso para dizer que sou Alexandre Heberte, filho de Sr. Tico e D. Graça. Tenho mais 5 irmãos: Luciany, Luciene, Lucimar, Souza e Alysson. Mais todos os meus sobrinhos lindos e cunhados e cunhadas.

Sou artista. Sempre sonhei ser artista. Já quis ser cantor de trio elétrico. Acho isso demais, você ter o poder de conduzir a massa! Também quis ser ator de comédia, dessas que a piada não nasce pronta, que depende muito de como o ator fala o texto. Ainda adolescente, imaginava que ia ser escritor, ao estilo de Clarice Lispector, em um mar infinito de sensações do inconsciente, que se projeta e se confronta com a vida real. No espelho, me dei conta que talvez não fossem esses os caminhos. Mas, afinal, qual era o meu dom? Onde começava essa estrada de realização?

Me apaixonei pela arte da tecelagem.

Essa coisa de fazer um tecido manual – útil ou inútil – para moda, decoração ou qualquer outro tipo de uso nada óbvio. Chegar até aqui exigiu sacrifícios e superação; uma luta comigo mesmo para lidar com vícios e maus hábitos. Mas teci meus caminhos.

Participar do Projeto Melissa Meio-Fio é uma celebração, tanto por ser um dos noves escolhidos entre conectores experts, quanto por ser um canal perfeito para contar detalhes desses últimos anos, desde que a tecitura tomou conta da minha vida feito amor. Aquele gosto bom de dizer ‘olha, papai, te amo, e esse filho que parecia que não ia dar certo acha luz sempre no fim do túnel. Porque o senhor e mamãe me deram aquilo de mais importante: ser gente do bem, e, fazendo bem a nossa parte, o mundo olha e cuida melhor de nós.’”

Alexandre tece pelas ruas, parques e calçadas de São Paulo. Ele sai da sua casa, na Avenida São João, e leva seu tear consigo. Faça chuva ou faça sol. Nas fotos, ele tece no Minhocão.

 

Fotos: Vtao Takayama