"Não é novidade que a sociedade produz muito mais do que precisa.

O desperdício é uma responsabilidade compartilhada e deve ser pensada também pelo consumidor.

 

Dezoito mil toneladas de resíduos são gerados diariamente em São Paulo e, segundo dados oficiais, somente 1,2% é encaminhado para a reciclagem. Como morador do centro de São Paulo, observo o trabalho quase invisível de muitos coletores que encontram no lixo uma maneira de sobreviver.

 

Esse é um dos assuntos que mais me interessa na cidade e, felizmente, São Paulo vem se reinventando e sendo palco de projetos que veem no descarte uma forma de transformar a maior externalidade atual, o lixo, em inclusão social, cidadania e reabilitação.

 

Segundo a Abit - Associação Brasileira de Indústria Têxtil, são descartadas diariamente 12 toneladas de retalhos só na região do Bom Retiro.

 

Seja no presídio onde dou aulas de crochê* ou no coletivo Descarte, do qual participo, preocupo-me em inserir o lixo no contexto principal dos trabalhos, seja como matéria-primaseja como pauta para discussão e questionamento.

Em geral, o material dentro das minhas criações vêm de doações das tecelagens e malharias que ficam no Bom Retiro, ao redor de meu ateliê.

Sempre que voltava para casa, via muitos sacos cheios de retalhos jogados na rua. A quantidade era enorme e, por isso, resolvi pensar sobre o formato dessa indústria frenética que tanto produz e desperdiça. A partir da forma desses materiais, elaboramos diversos painéis-tapeçarias utilizando resíduos. No fim, o resultado foi uma surpresa!

Conseguimos extrair muita beleza através de algo considerado inútil.

As obras chegam até 10 metros de comprimento e sua grandiosidade tenta representar a quantidade colossal de tecidos que são descartados diariamente.

Nas fotos, a partir da variedade de tecidos descartados, dá para observar a diversidade de padronagens, cores e texturas que foi reinventada.

Ao passo que estamos caminhando cada vez mais para uma era de escassez dos recursos naturais, tudo pode (e deve) ser reaproveitado sem preconceitos, seja para produzir arte ou para reinventar a própria forma de utilização da matéria-prima original.”

Nas fotos, Gustavo mostra sua escultura gigante e itinerante de crochê, obra realizada com descartes de retalhos do Bom Retiro, bairro onde está localizado seu ateliê. Conheça mais produções do artista vistiando o seu tumblr.

 

 

 

Fotos: Vtao Takayama e Danilo Sorrino