Queer:

Segundo o artigo de Leandro Colling sobre a Teoria Queer, “'Queer pode ser traduzido por estranho, talvez ridículo, excêntrico, raro, extraordinário', diz Guacira Lopes Louro. A ideia dos teóricos foi a de positivar esta conhecida forma pejorativa de insultar os homossexuais. Segundo Judith Butler, apontada como uma das precursoras da Teoria Queer, o termo tem operado uma prática linguística com o propósito de degradar os sujeitos aos quais se refere. 'Queer adquire todo o seu poder precisamente através da invocação reiterada que o relaciona com acusações, patologias e insultos'. Por isso, a proposta é dar um novo significado ao termo, passando a entender Queer como uma prática de vida que se coloca contra as normas socialmente aceitas." 

"Hoje Queer está na moda, sendo ressignificado. Mas não foi sempre assim.

Na minha cidade, lá no interior do Cariri, acho que o movimento Queer começou na década de 80. Adolescência em ebulição, uma nova geração de gays, viados e travestis dispostos a “chutar o pau da barraca” e “pagar para ver” como se faz para viver no meio do sertão. Na época, eu devia ter uns 11 ou 12 anos. Acordo e já escuto um burburinho: “Vestido de mulher”, “Vixe, Maria! ”, “Dizem que virou travesti”, “Travesti?”, "Dizem que voltou de São Paulo com peito”. Não sei como, mas intuí que havia algo ali, algo que dizia respeito a mim.

- Mamãe, vou dar uma volta de bicicleta!

Lá fui eu atrás da razão daquele alvoroço matinal. Da minha casa, na Rua São Francisco, para a Rua Dr. Floro, era um pulo. Não demorei para chegar ao local da cena: trinta, quarenta, cinquenta pessoas amontoadas na porta da casa. Parei a bicicleta e fiquei observando a distância. A energia dos protagonistas beirava a ignorância, a curiosidade e a revolta. Beatas em alvoroço, senhores indignados. Sem perguntar nada para ninguém e assustadíssimo com minhas próprias sensações internas, voltei para casa mergulhado em percepções de que minha vida iria mudar daquele dia em diante, e que a realidade poderia ser cruel.

Por que um homem não pode virar mulher? Por que não podemos ser como queremos ser?

Dias depois, fiquei sabendo que a personagem da Rua Dr. Floro, que vou chamar de Márcia, a travesti, tinha vindo de São Paulo para visitar os pais, mas partido antes que fosse apedrejada em praça pública.

As gatas vieram para abalar com todas as estruturas da cidade! Imaginem isso: Juazeiro do Padre Cícero e essas bichas degeneradas, esses viados afeminados, esses meninos de quinze anos tomando hormônios e dando a cara a bater. As Mônicas eram lindas, os homens babavam! Marcoletti, Xuxu, Rogaciano, Ronalda, Johnathann Kiss, entre outras, no frescor da adolescência, sambando literalmente na cara da sociedade na principal praça da cidade. Carnaval no mundo, e nunca antes a cidade havia visto algo parecido. Na manhã do dia seguinte, depois de uma madrugada de chuva torrencial, corre a notícia que o Arco de Nossa Senhora havia ruído. Coitada das gatas que só queriam se divertir. Mas a queda do arco era a sentença celeste de desaprovação do comportamento dito “pervertido” delas.


Naquele tempo era assim: ser viado era ser afeminado ou virar travesti, e cair na prostituição. Ou ser cabeleireira. A essa altura, eu sabia que me identificava com aquela turma, e que era questão de dias para ser amigo de todos.

O problema era: sou assim, então tenho que virar mulher?

Quais eram os nossos heróis? Quem nos representava e aparecia na mídia? 

Rogéria, Roberta Close, Telma Lip, e mais os personagens caricatos dos programas de humor da TV brasileira. Só. Se eu soubesse antes da existência do Dzi Croquettes, ou que havia outros tipos de homens que também gostavam de homem, teria me poupado muito sofrimento e lágrimas solitárias. Mas a coisa ainda estava muito amarrada em pleno interior do Cariri. 

 

Internamente, eu sabia que não queria ser travesti, embora fosse uma menina. Sabia que não tinha estrutura para fazer sexo por dinheiro, e também sabia que não tinha menor vocação para cabeleireiro

 

E aí, gata? Como é que vai ser isso?

 

Jonathan Kiss, assassinado no fim da década de noventa, foi o gay que abriu meus olhos para novos horizontes. Cabelão até a cintura, montada no salto, terno e lenço de seda, perfume francês, Kiss, autodidata, batia na porta das empresas com seu projeto de dar visibilidade à sociedade. Promovia desfiles e festas com celebridades, além da Revista Interview, que era algo do tipo Amaury Junior, só que impressa. Havia, ainda, os meninos do teatro e os artistas plásticos, gays assumidos. Fiquei amigo de todos. E, juntos, lutamos para abrir caminhos. 

Acho que sempre fui Queer. Avançado demais para meu tempo. Cabelos de todas as cores, figurinos surreais, saltos altíssimos até o Céu! Enfrentei tudo!

 

A coisa só ficou complicada quando meus pais e irmãos começaram a pagar um preço muito alto pela minha liberdade. A sociedade não admitia que papai e mamãe permitissem aquela minha conduta. Primeiro, tentaram me intimidar. Não conseguindo, começaram a atacar minha família, de uma forma subjetiva e torturante. Tadinhos deles. O que podiam fazer diante da minha força em avançar?! Devo dizer que esse assunto nunca foi fácil para Seu Tico e D. Graça, como são conhecidos. Eles sofreram muito com isso. Todos nós. Mas o amor que sentimos uns pelos outros sempre falou mais forte. 

 

 Lembro do impacto que foi ler Babado Forte no fim da década de 90, da jornalista e produtora de moda Erika Palomino. Conheci Palomino dias atrás e chorei de emoção ao contar que, a partir dela, o alívio de saber dos meus pares aqui, em São Paulo, ampliava a sensação de não estar tão sozinho no mundo.

 

Em recente palestra na Casa Plana, coordenada pelo artista Bruno Mendonça, o tema Queer foi abordado de maneira muito clara. Na sua fala, ele traça uma pequena história dos artistas gays de Nova York que, através da arte, foram capazes de abrir caminhos subversivos e inteligentes, a fim de se unir ao sistema sem perder a identidade. O assunto está na mídia pelo menos nos últimos cinco, seis anos. Há estudiosos na área, inclusive o Bruno. 

 

Como eu disse, Queer está na moda. 

 

Se isso vai passar, se é bom ou ruim, só o tempo dirá. O que se sabe é que, a cada dez anos, uma nova geração brilha. E é a geração anterior, com personagens anônimos ou não, que alicerça uma nova viga na linha tênue entre tolerância e intolerância. Muitos gays ainda são vitimas de homofobia. O preconceito existe e ainda está muito enraizado na sociedade. E como se não bastasse, muitos gays ainda são vitimas dos próprios gays. Gente, isso é um absurdo! Uma classe que não respeita sua própria diversidade, como pode querer viver sua vida em paz? Precisamos construir essa viga.

O projeto Melissa Meio Fio tem me instigado a refletir e escrever sobre minha vida. Se expor nunca é fácil.

Ficar no anonimato ou em silêncio é muito cômodo. As coisas acontecendo, e você faz cara de que não é com você. Sair da zona de conforto não é fácil, mas, talvez, o mais importante seja tomar consciência de que podemos fazer diferente. Com inteligência e educação, esses novos pilares concretos poderão ser armados, e futuras gerações poderão brilhar através do breu da ignorância e do desrespeito. Nada, ninguém, nenhuma religião ou Estado têm o direito de dizer o que é certo ou errado quando se trata de amar e ser amado.

Talvez o movimento desapareça daqui alguns anos. Talvez outra coisa surja no lugar. Por ora, o Movimento Queer entrou para a história e lançou luz sobre todos os caminhos possíveis. Hoje, o gay pode ser tudo o que quiser. Ninguém precisa mais viver só da prostituição ou sendo cabeleireiro, se essa não for sua escolha."

A série de Alexandre "Trama da Diversidade" está em exposição no SESC Piracicaba até o final de outubro.

 

Os tecidos são influenciados diretamente pelo bairro em que o artista mora, no centro da cidade, um lugar onde ele se sente livre para ser o quão Queer ele quiser. "Moro do lado do Largo do Arouche, e acho o lugar uma fonte de inspiração gay, diversa e colorida. A cor também é algo que trago do Nordeste, daquele céu que só existe próximo de cidades que beiram a Linha do Equador. Os tecidos manuais são tramados com algodão. Ao mesmo tempo em que componho diversas linhas de algodão, eu desenvolvo essa renda de superfície, bordado que não é bordado, filé que não é filé, toda a herança cultural que carrego comigo dos meus anos no Ceará."

 

 

 

 

 

Créditos: Vtao Takayma e acervo pessoal