Este post surgiu como um desdobramento do nosso post anterior, Ressonância, sobre memórias e a nossa incapacidade de vivenciá-las por completo hoje em dia. Nossa amiga-designer-pesquisadora Rita Wu se interessou pela temática e sugeriu a continuidade do mergulho pelas memórias rumo a um futuro não tão distante: as memórias virtuais.

 

Dessa vez, ao invés de álbuns de família em busca do nosso passado, abrimos o facebook logo pela manhã, e imediatamente fomos avisados que temos memórias para percorrermos. Memórias das amizades iniciadas neste dia, dos lugares visitados, das pessoas que encontramos, das comidas que comemos, das pessoas que comemos ou nos comeram. 

Não se preocupe com o esquecimento, a virtualidade vai garantir que todos os momentos vividos e compartilhados com os demais serão lembrados.

Vivemos na transição do analógico para o virtual. E, neste mergulho para a realidade virtual, nossas interfaces ainda são muito rústicas, nos próximos anos devemos viver um aumento de gadgets que tornem nossas interações virtuais cada vez menos "digitais" - dependentes das pontas dos dedos-, porém mais imersivas. Deleuze define a expressão virtual se referindo a uma "realidade ideal, no entanto, não real"; este mundo em que estamos prestes a mergulhar possui a liquidez que nos permite criar avatares, imagens, percorrer distâncias em segundos e, supostamente, acessar um acervo infinito de memórias, recordações, toda nossa capacidade cognitiva cada vez mais dependente das máquinas. 

 

No filme Memento (Amnésia), do diretor Christopher Nolan, o personagem principal tatua diariamente seu corpo para driblar um quadro de amnésia que apaga sua memória a cada 24 horas. Assim, ele pode desvendar o mistério de quem é ele e o que está fazendo. Quantos de vocês que estão lendo pegam o celular logo ao acordar? Pelo menos 75% já acorda sendo lembrado da conversa inacabada de ontem, o e-mail que deixou de responder, os compromissos daquele dia ou com o facebook lembrando que "temos memórias deste dia". Chegamos a refinar estas ferramentas a ponto de podermos escolher com quem queremos ter memórias e quais as datas que não queremos lembrar!

"André, nos preocupamos com você e as memórias que você compartilha conosco. Pensamos que talvez você gostaria de lembrar deste post do Instagram de 1 ano atrás"

Realmente, Facebook, obrigado pela lembrança, eu não lembraria que há exatamente 365 dias estávamos comprando resina para fazer o pé do nosso querido Dr. Seng.

A verdade é que, aos poucos, estamos encarregando as máquinas da simples, e até então essencial, tarefa de lembrar do nosso passado. Deixamos de construir vínculos afetivos com nossas memórias; criamos uma porção de flashs de nossas lembranças para alimentarmos nosso insta, face, whatsapp, e assim, gradativamente, as máquinas começam a saber mais sobre nós do que nós mesmos. "Nós delegamos a nossa memória a uma certa memória externa, hard drive, nuvem (...) e como, via machine learning, as máquinas começam a saber mais de nós mesmo do nós mesmos" disse Rita, questionando a nossa ausência de domínio sobre nosso passado e fazendo referência ao de machine learning, a capacidade dos computadores e inteligências artificiais de reconhecer padrões e evoluir a sua "capacidade cognitiva". 

Parece interessante do ponto de vista mercadológico que nós nos tornemos corpos sem memórias. Sem raízes nos objetos, em nosso entorno, sem apego às nossas casas, esses corpos sem memórias que transitam entre o passado ao bel-prazer da virtualidade não se preocupam com o descarte daqueles objetos preciosos que, por algum motivo, perderam seu significado. Celulares, móveis e objetos em geral são criações impessoais, sem memórias, plataformas funcionais onde a estética serve somente como chamariz para impulsionar vendas.

Aos poucos nossos corpos perdem importância, as vivências físicas se dissipam, sendo substituídas pelo corpo holográfico, intangível, onde nosso presente será o resultado maquinado e processado do nosso passado; futuro em que dependeremos das máquinas para ter consciência, para saber por completo quem somos. "Você tem uma memória neste dia", já dizia Facebook.

 

 

 

 

André e Martina estão participando da Votação Meio-Fio

Depois das trocas de inspirações, histórias e experiências chegamos a uma nova fase do Melissa Meio-Fio: a exposição de ideias. Os Refletores foram convidados a desenvolver um projeto autoral que revelasse suas singularidades e devolvesse um pouco da força criativa que São Paulo oferece diariamente. Orientados por um Conector, eles receberam a chance de olhar para si mesmos, suas expressões e potências e criarem algo que refletisse seu percurso até aqui.

 

Descubra os projetos dos refletores e vote no seu favorito, 3 deles serão escolhidos e materializados em 2017