"Um dia, estava eu na estação de trem e ouvi do outro lado da plataforma um homem gritando: 'Bixa!! Vira homem!! Isso daí não é homem. Viado!!'

Como se ninguém tivesse notado (risos). Como se as pessoas tivessem que ser avisadas, para não ser passadas pra trás.

Em nenhum momento eu reivindiquei essa identidade, a de "homem". Muito pelo contrário. Ela me foi obrigatoriamente exigida. Como um casamento pré-definido, antes mesmo do meu nascimento. E eu que não aceitei. O que aquele homem estava fazendo era uma performance. Ele estava executando o seu papel, honrando o lugar que ocupava e precisava deixar claro para todxs ali presentes: eu era uma usurpadora! Só assim conseguiria manter sua posição. Ele estava atacando o que eu representava para que eu não saísse impune. Uma aberração, criminosa, traidora!! Eu deveria ser denunciada. Eu que não merecia nem ao menos estar viva, quanto mais ocupar o mesmo espaço que ele. Pois ele sim é homem.

Desses com H maiúsculo. Dos que só compram desodorante masculino e vão proteger e defender sua casta a todo custo.

É isso que eles fazem: se protegem, estão bem articulados e atacam quando se veem ameaçados. Fazem isso o tempo todo.

E, às vezes, nós também cumprimos os nossos papéis de vigilantes do gênero. Quando me gritam, quando riem de mim, quando se cutucam, nos apontam, desviam o olhar, quando dizem que nosso lugar não é ali, que não posso usar o banheiro. Não aquele. Não você. Não eu.

A masculinidade é muito frágil e qualquer sinal do feminino é capaz de desmoroná-la.

E por isso eles temem. Tremem com a nossa presença. Com a nossa existência. Nós denunciamos sua farsa. Nós queremos mudar as regras. Queremos ficar sem as pregas. Raspar os cabelos, tomar hormônios, arrancar os peitos, os pintos, nem anjos nem demônios, negamos o matrimônio, criamos novas ligações entre os neurônios.

O pior é perceber que sempre que eu era atacada, quem se envergonhava era eu. Eu que ficava constrangida com a situação. Passei, então, a andar com um megafone - para denunciar os ataques em alto e bom som. Eram esses machos, sim, que tinham que se envergonhar, não eu. Para que todxs a minha volta percebessem do que estavam sendo testemunhas - e cúmplices. O silêncio também é resposta. Não fazer nada também é uma ação.

Hoje o megafone se transformou em microfone.

E minhas músicas são resposta e minha maneira de agir. De reagir. De lutar e persistir. E nós vamos soprar, cantar, escrever e existir, e seu império há de cair!!

Isso é Linn da Quebrada, entendeu, parça?!
E isso não é só meu nome, é também uma ameaça!

Linn em uma de suas performances da música Bixa Preta durante a Festa Extúrida, na Casa da Luz.

 


Video: Carolina del Blue

Fotos: Vtao Takayama