"Antes de tudo, queria ressaltar que estou muito feliz por poder compartilhar um pouco do meu universo nesta plataforma. Pretendo usá-la da melhor maneira possível, em uma espécie de ativisimo digital. Usar a minha voz em prol de algo realmente importante – é para isso que estou aqui. Conforme falei no último post, a criação da minha marca TRICOMA foi nada mais nada menos que um reflexo da minha grande insatisfação ao olhar para o mercado da moda atual.

Já reparou que, de uns tempos para cá, estamos todos uniformizados?

Compramos peças dos mesmos lugares, todos com as mesmas referências estéticas. Os profissionais encarregados pela criação das roupas parecem seguir o mesmo padrão mundial de previsão de tendências. Já vem tudo pronto, e o intuito é só produzir e vender, vender e vender.
Por isso, resolvi explicar um pouco sobre as mil e uma maneiras que uma marca pequena e, ainda por cima, consciente, pode se f•der aqui no Brasil. Vamos dividir esse processo por etapas?

Produção

A minha maior dificuldade sempre foi – e ainda é – achar profissionais com um maquinário para tecer o meu tricô. Afinal, somos uma marca independente, que não acredita no modelo de estocagem e nem investe em grandes produções. Até aí, ok: eu corro atrás mesmo – bato de garagem em garagem procurando gente que acredite na marca e tenha disponibilidade para produzir as peças. Mas, de repente, vem um concorrente grande, faz uma mega oferta e essas pessoas acabam optando por produzir com quem se enquadra nos moldes antigos – com bastante dinheiro para investir em muitas peças. Não dá nem para ficar p•ta, pois a pessoa está se dando bem, né? Significa que toda a energia que mandei deu certo. É um ciclo vicioso, entende? O que importa é que eu não desanimo.

As peças da TRICOMA são produzidas na cidade de Jacutinga, em Minas Gerais. Tenho uma relação bem forte com essa cidade. A minha avó nasceu lá, a minha mãe nasceu lá, e eu nasci bem pertinho, em Mogi Mirim.

Para quem não sabe, quando teve o boom da industrialização aqui no Brasil, muitos imigrantes italianos se instalaram na cidade, trazendo a habilidade de tecer e bordar. No fim da década de 1960, um jovem italiano chamado Antônio Pieroni trouxe para Jacutinga a primeira máquina manual de fazer tricô: a Lanofix.

A população abraçou essa nova vocação econômica e, hoje em dia, a cidade é referência nacional na fabricação de malhas e tricô. Devido a essa trajetória histórica, muitas pessoas compram a máquina de tricô industrial com o sonho de abrir uma malharia própria – e são por esses profissionais, que lutam tanto pelos seus sonhos, que a TRICOMA procura.

Claro que entramos na questão do ritmo da cidade de Jacutinga. O local continua sendo uma cidade pequena, com pessoas simples, e eu respeito bastante o timing delas, completamente diferente do nosso. É realmente o slow que tanto falamos em nossas postagens.

 

Aí muita gente pergunta: 'Por que você não compra uma máquina?' A resposta é muito simples: Porque não.

 

 

Isso é um outro negócio, sabe? Tem que ter espaço para ela e profissionais treinados para tecer com ela. Além disso, a manutenção é carésima! A nossa ideia é aquecer o mercado dos pequenos produtores, investindo neles, e não abrir uma malharia.

Venda

Nós optamos pela plataforma de venda online. O próximo passo foi tentar entrar em contato com as lojas multimarcas. Outro tapa na cara. Elas querem comprar barato pagando praticamente o preço de produção dividido em 30, 60 e 90 dias. Para quem tem estoque, faz todo o sentido, mas para quem não tem, esse modelo não funciona. Afinal, você tem que produzir tudo antes e esperar quase 120 dias para receber, sendo que preciso desse fluxo de caixa para pagar os profissionais que trabalham comigo e produzir coisas novas.

Existem algumas opções de lojas multimarca conceito que já têm essa pegada, com uma curadoria incrível e uma temática bem demarcada. Um exemplo é a PAIR, que revende peças nos tons branco e preto de diversas marcas incríveis. A TRICOMA busca fazer parcerias com essas lojas, e está disponível para a criação de estampas exclusivas. Ou seja, posso criar peças baseadas na estética proposta pela loja, com tricôs que só os clientes de lá poderão comprar!

A loja Endossa também faz parte desse movimento, e inova o mercado do país com o conceito rental space, proporcionando um espaço bem bacana para que as marcas independentes tenham condição de expor os seus produtos em um espaço físico.

Conclusão

A conclusão que cheguei é que o mercado de moda brasileiro, em sua maioria, se baseia em quantidade e não qualidade.

 

Dica: Quando optamos apenas pelo baixo valor de uma peça, optamos também por baixar o valor da dignidade da vida. Acredite, tem alguma coisa muito errada e nada democrática quando você encontra roupas com preços surrealmente baratos.

Você veste o seu look do dia com estampa de suor, fome, sangue e trabalho escravo.

Eu, por exemplo, sempre curti garimpar roupas em bazares de igreja e brechós (esse primeiro dá de 10 a 0 em preços), porque é super barato e nem sempre tive grana para investir em uma peça nova. Além de tudo, garimpar é uma reciclagem incrível! Pelo o que me lembro, gasto em média 50 reais em um bazar e saio com uma sacola com mais de 15 peças incríveis.

Óbvio que você não precisa ficar sem comprar roupas novas, mas a questão aqui é consciência. É pesquisar a marca, olhar a etiqueta e concentrar mais o seu dinheiro, que é também uma energia, dentro do seu ambiente. Fazer a economia de seu bairro girar, saca? Escolher a mulher que mora na sua rua para fazer uma limpeza de pele incrível em você, e não um salão que atende mil clientes por dia. É fazer compras no mercado do chinês, e não sempre no Pão de Açúcar. É esse tipo de consciência que a TRICOMA quer trazer!

Compre menos, escolha bem."

 

Entre os garimpos de Aline está o bazar da Paróquia Imaculado Coração, na Consolação, que acontece a cada 3 meses.

 

 

 

 

Fotos: Vtao Takayama, Give Me Five, Uriel Sinai (NewsWeek), Fahad Faisal, Divulgação Pair e Endossa