"O corpo é a única coisa que temos"

- Paula Garcia

A contagem regressiva para a SP-Arte começou. Há pouco mais de duas semanas para Linn da Quebrada, Alexandre Heberte e Tasha e Tracie Okereke é o momento de ajustes para a feira. Compartilhando sua experiência como artista e curadora, Paula Garcia caminha ao lado dos quatro aparando as arestas das propostas poderosas selecionadas na primeira fase do Meio-Fio.

 

Habitante de Nova York, Paula divide seu tempo como pesquisadora e curadora do Instituto Marina Abramovic e seus projetos autorais. A performance é seu metiê. Ela usa o próprio corpo como plataforma artística. "O corpo é a única coisa que temos", ensina.  Em um trabalho exibido no SESC Pompeia em São Paulo, por exemplo, ela passou dias inteiros em um ambiente imantado movendo peças de metal de lugar continuamente. Seus projetos apostam na presença física, na permanência e na convivência. As palavras representam o processo criativo em si. "Mais do que o ato de performar, do que a questão física, está a questão humana", explica.

A presença física, a permanência e a convivência permeiam sua proposta curatorial para o espaço Meio-Fio na SP-Arte:

 

Quais são as características em comum entre os três selecionados?

Eles têm em comum uma clareza e uma potência em seus discursos. Um grau de afeto e de profundidade em relação ao próprio trabalho que é difícil de encontrar por aí. São muito conscientes de quem são e do momento da vida em que estão. A presença física deles por si só já manifesta muita coisa. Estão inseridos no debate sobre o que é o corpo na arte hoje, porque jogam com as fronteiras dos padrões (ainda vigentes) de comportamento. São o corpo revolucionário.

 

E como unir estas três potências se apresentarão no espaço da SP-Arte?

Na SP-Arte o espaço será dividido em três partes iguais. A ideia é apresentar os artistas para ao público da feira, por isso, eles toparam estar presentes fisicamente  ou em vídeo. O Alexandre Heberte vai finalizar sua expedição Trama São Paulo, produzindo mais um tear, e vai tecer durante todos os dias do evento, apenas com fio preto. Será uma performance de longa duração. A Linn, além do videoclipe batizado de "Blasfêmea", marca presença por meio de depoimentos em vídeo. Ela ganhou bastante visibilidade recentemente. Brinco que ela está mais disputada que a Madonna (risos). Já no espaço destinado às gêmeas Tasha e Tracie, estará exposta a coleção de roupas e o vídeo do desfile realizado na Casa do Povo. O tema da coleção associa as mulheres da favela a  divindades. As duas falam sobre o empoderamento do corpo, da mulher e sobre a realidade da comunidade onde vivem. Falam delas, mas falam do outro.

Da esquerda para direira - Alexandre Heberte
- Linn em gravação de Blasfêmea
- Irmãs Okereke em produção de MPIF

O que você observa do processo criativo deles até agora?

Eles têm uma energia que transborda. Neste sentido, eles resumem o papel primordial da arte: de mudar a sensação, a vibração, de te levar para lugares que você nunca acessou. São pessoas com muita verdade dentro delas. São donas de experiências de vida profundas, nas quais não há espaço para mimimi. As boas narrativas atuais são dos artistas que estão olhando para dentro, que estão transformando questões muito íntimas. Os quatro têm isso. Eles sabem quem estão fazendo a diferença porque seus trabalhos estão em contato com a realidade. Eles são filósofos do futuro. São portadores do amor, da escuta, de segurança, de autoestima e da conquista.  Fiquei com vontade de voltar a morar em São Paulo.

Nos próximos dias, acompanhe aqui na plataforma Meio-Fio as entrevistas com os três selecionados.

 

 

Texto: Laura Artigas

Fotos: Vtao Takayama, Nubia Abe e acervo.