Maio de 2014: E durou mais de um ano e meio nessa fase, nesse ciclo, nesse processo. Tudo começou com uma bolinha que começou a crescer, inchar e endurecer. Lembro do dia em que estava na frente do posto de saúde. Foi, ali, a primeira vez que tive coragem de chorar. Tive medo. O que tava acontecendo, por que comigo? Dois meses de medo e angústia, tentando descobrir o que era. Logo ali, no saco, nas bolas, nos colhões. No símbolo do sagrado masculino. Símbolo da virilidade. E logo eu, essa bixa, que vinha numa disputa contra as marcas que a masculinidade construída e compulsória havia deixado no meu corpo. Estava me livrando desses traços de masculinidade que me engessavam, prendiam e despotencializavam. E, então, olha só que golpe do destino?! Câncer no testículo. Não pude deixar de notar o quanto esse pensamento estava presente nos olhares, comentários e conversas mais amigáveis. Mas, bixa, essa masculinidade não se concentra nas bolas. Está disseminada por todo corpo, é um mecanismo sutilmente introjetado em algumas pessoas com pau. E, ainda assim, era quase como se eu tivesse buscado por isso. Como se, além de lidar com a doença em si, eu tivesse que lidar também com a responsabilidade de estar doente. E o curioso é que o câncer são células - minhas células - que se recusam a morrer e, com isso, crescem desordenadamente. A masculinidade que quer ser eterna?

 

“Ou eu permaneço dominando este corpo, ou ninguém vive! ” - disse a virilidade. 

E foi nesse momento que eu finalmente descobri que era mortal. Percebi material e brutalmente o que significa ser corpo. Que o corpo apesar de suas potências falha. E olha só, também pode morrer.

Mas não entendam isso como um apelo melancólico. O câncer não é uma sentença de morte. Muito pelo contrário. Eu continha em mim a pulsão de vida e de morte. O câncer não é um predador invencível e maligno, e entender isso faz com que passemos pela doença da maneira mais saudável possível; por mais contraditório que isso possa parecer. A doença não é uma metáfora. E essa foi das coisas mais importantes pra mim nesse processo. Eu não estava sendo punida por nada. Minha doença não significava outra coisa senão que sou corpo. Que falha. Que sou frágil.

E como lidar com isso? Me sendo. Da forma como eu estava. Não lidando com uma ideia de corpo que eu não era. Quem era eu antes de entrar no hospital, antes daquele laudo? Corpo “saudável”, “pleno”. Mas agora precisava reaprender a olhar, escutar e habitar este corpo. Doente. Oncológico. Com aquelas possibilidades, limites, intensidades, dores, urgências, fraquezas e potências.

Um testículo foi retirado. Uma parte amputada, mas o que eu sentia era alívio por ter acabado. Eu podia me sentir aliviada, pois como um médico disse, por eu ser gay, mesmo que perdesse as duas bolas, eu não precisava delas. Não pensava em ter filhxs, né?! Os homens precisam de suas bolas. Não eu. Mas, mesmo assim, o câncer foi teimoso e reincidiu. Calma, não se assuste. Isso é frequente nesse tipo de tumor. Agora estava nos gânglios próximos aos rins. E tudo era tão difícil de entender. Numa linguagem que parecia ter sido feita pra ser inacessível. Me senti muitas vezes não paciente, mas refém de um saber médico. E que por ter pouca informação sobre, eu tinha que obedecer, sem questionar.

Quimioterapia: Ciclo de 21 dias. Quatro a cinco horas por dia. Quatro ciclos. Cisplatina 40 mg. Sol. Fisiológica 0,9% 900ml. Sol. Manitol 20%. Cinco dias na semana. Injeções de granulokine na barriga. Toda semana eu estava no hospital. Algumas semanas mais, outras menos. Mas eu sempre estava. Vendo os mesmos vídeos de shows, os bingos incessantes, a admoestação a uma felicidade obrigatória. Mesmo com todas aquelas horas de medicação injetada em mim, com todos seus efeitos colaterais, sem poder baixar a cabeça. Nunca. Numa sala repleta de pessoas na mesma condição que eu. Pessoas jovens, velhas, mulheres com seus lenços na cabeça. E eu não tinha nada de especial ali. Não conseguia ser a bixa destruidora. Ali eu não era a Linn. Ali eu voltei a ser o Lino. Como me chamavam na recepção. E por mais que eu fosse de vestido, batom, ou que quer que fosse, isso não importava. 

Ali eu era meu RG, meu estado, sem subjetividade. E eu não tive forças, nem energia pra lidar também com essa demanda.

Demorei meses pra conseguir falar sobre isso com a equipe médica. E ainda assim, parecia que eu estava falando de um mero capricho. Não passava de frescura. Afinal, eu não queria ser mulher, nem homem, nem gay. Queria ser a bixa. Doente, mas a bixa que poderia me fortalecer naquele processo. E, assim, passei a fazer da doença meu processo de cura. De Freescuras. De libertação e cura. De não abrir mão das minhas freakscuras. A quimio age matematicamente sobre as células doentes, e também sobre as saudáveis. Tive então que abrir mão dos cabelos, dos cílios, dos pelos do sovaco, das pernas, do cu. Minhas unhas escureceram, minha pele ficou muito sensível. Vomitei muito. Fiquei neutropênica, sem células de defesa. Me senti feia. Me senti dessexualizada, indesejável. Desinteressante. Sem forças. Sem poder de decisão sobre mim. Afinal, a quem pertence o corpo doente? Ao hospital, às pessoas médicas, à família, parentes, amigues? Qual a melhor maneira de adoecer? Não queria que sentissem pena de mim. Não admitia estar doente. E então eu tive que me disponibilizar e viver uma experiência radical no meu próprio corpo. Até me permitir adoecer. E entender o que isso significava. Novos limites e contornos. E, assim, pude descobrir algumas potências em ser frágil. Fraca. Feia. A potência de inventar forças e belezas. Tive de tirar força do cu. E do corpo todo. Daquele corpo todo. Inteiro como só ele era. Com tudo que eu já havia sido. Foi difícil, nauseante, inspirador. Mas tive o privilégio de não passar por isso sozinha. Tive ao meu lado pessoas parceiras, companheiras. Tive uma rede de apoio imprescindível. Apoio emocional, psicológico, financeiro, afetivo e criativo. E com todas essas forças somadas, estou aqui hoje: curada?! De que, de quem?!. Seja lá o que isso possa significar. Recebi os exames que dizem que minhas células cancerígenas estão zeradas. Meu atestado de saúde; efêmero, momentâneo, instável. Pois tenho de voltar com certa frequência para refazer esses exames. Com toda a inconstância de estar viva. Meus cabelos já voltaram a crescer. 

E estou aqui hoje, mais fresca, forte e tonta que nunca. Agradeço imensamente a todas as pessoas que me apoiaram, me deram forças e estiveram ao meu lado nesse processo. Mas não pensem com isso que essa frescurada acabou. Ela tá só começando. E eu não vou abrir mão de me ser. Nem morta.

 

 

 

O projeto de Linn, BlasFêmea, faz parte da Votação Meio-Fio

Depois das trocas de inspirações, histórias e experiências chegamos a uma nova fase do Melissa Meio-Fio: a exposição de ideias. Os Refletores foram convidados a desenvolver um projeto autoral que revelasse suas singularidades e devolvesse um pouco da força criativa que São Paulo oferece diariamente. Orientados por um Conector, eles receberam a chance de olhar para si mesmos, suas expressões e potências e criarem algo que refletisse seu percurso até aqui.

 

Descubra os outros projetos e vote no seu favorito, 3 deles serão escolhidos e materializados em 2017

 

 

 

 

Fotos: Nu Bi

Freakscura.tumblr.com