"Ter ido no primeiro dia de SPFW42 para assistir ao desfile de um mano negro foi uma experiência tão empoderadora que saí de lá motivado a, um dia, também fazer parte da semana de moda. Foi com o sentimento de orgulho de ver nossa raça ali, se apropriando de um lugar que nunca nos deixaram participar, que registramos o mundo negro ao nosso redor. Não como um look do dia mas como uma forma de enaltecer esse momento."

Eduardo Costa

"Ainda bem que pude marcar presença no marco histórico que foi o desfile do Laboratório Fantasma. E digo marco histórico porque para os negros é um verdadeiro salto, sim, com direito a samba e passinho na padronização avassaladora das passarelas do mundo da moda. Estar presente e poder acompanhar cada detalhe foi inesquecível.

 

Em uma apresentação toda trabalhada nos telões e projeções de São Paulo, o Emicida, em parceria com seu irmão Evandro Fioti, começou o desfile com uma palinha de arrepiar. Com o jeitinho típico do rapper, eles chamaram na miúda, sem medo de incomodar (e muito) a classe A - quem foi e sempre será o pilar majoritário para não haver democracia no mundo da moda. Emicida fez música sobre as favelas, as ruas e a sagacidade necessária para a sobreviver dentro dessa metrópole desigual e preconceituosa.

 

Com um tema de ancestralidade africana que se perdeu no Brasil, as peças misturavam imponentemente os estilos africano e chinês e pairavam referências das ruas, a essência dos irmãos, "onde tudo se inicia e tudo termina". Estampas em branco e preto, kimonos e roupas versáteis para o dia e a noite na selva de pedra. Com o auxílio técnico do estilista João Pimenta, firmaram o conceito do atemporal e trouxeram conceitos fortes e ideias explosivas.

Chamaram os negros para o poder e os brancos para entender que o posto é de todas as raças.

"Bendito, louvado seja" foi a música e refrão que imperou no desfile e que não sai mais da minha cabeça (e nem quero que saia). Me senti representada depois de ver modelos plus size, como o maravilhoso Akeen, o modelo com vitiligo Sam ou as diversas negras como Looana, Tássia Reis - até o épico Seu Jorge. Foi com um arzinho de 'vingada' depois de tantos anos tentando me encaixar no cúbiculo de padrões que voltei para casa. Os caras vieram e partiram ao meio a fita vermelha, deram largada para nosso espaço ser conquistado e firmado com os dois pés. Defino esse desfile com a mesma sensação que senti ao ouvir o Emicida fechar o desfile dizendo 'Fiz com a passarela igual fizeram com os camburões e com as favelas, enchi de preto': arrepiante. E denomino como: um culto."

Daniella Tinório

"O Emicida não foi e nem é o primeiro estilista negro. Tem muitos outros criadores por aí lutando que também podem ser citados. Julliana Araújo da Rma3, Camila Vaz, Apolinário da Cemfreio, eu. Pessoas que estão chegando com um trabalho impecável e que precisam, sim, de uma pessoa como o Emicida pra abrir nossos caminhos neste momento - agradeço muito a ele. O desfile foi lindo, as roupas, bapho. Com um casting muito plural e um show pra fechar a passarela, me senti representado e mal posso esperar para ver mais estilistas negros nas próximas edições."

Eduardo Costa

 

Fotos: Vtao Takayama

Video: Laboratório Fantasma

 

 

Votação Meio-Fio

Depois das trocas de inspirações, histórias e experiências chegamos a uma nova fase do Melissa Meio-Fio: a exposição de ideias. Os Refletores foram convidados a desenvolver um projeto autoral que revelasse suas singularidades e devolvesse um pouco da força criativa que São Paulo oferece diariamente. Orientados por um Conector, eles receberam a chance de olhar para si mesmos, suas expressões e potências e criarem algo que refletisse seu percurso até aqui.

Descubra os projetos dos refletores e vote no seu favorito, 3 deles serão escolhidos e materializados em 2017