Linn se define como "terrorist@ de gênero" e tem ganhado notoriedade por meio de suas letras diretas e contundentes sobre o direito à liberdade de gênero, sem contar sua perfomance marcante no palco. Trata-se de uma obra audiovisual criada a partir de uma letra de música composta por ela. O título é um trocadilho com a palavra "blasfémia", que significa a ofensa a uma divindade. O enredo do trabalho aborda justamente a discussão do feminino. Vai muito além do debate de gênero. Traz à tona seu viés sagrado. É um videoclipe, uma videoarte, um documentário, uma narrativa, um manifesto. Ela explica as múltiplas facetas do projeto na entrevista a seguir:

 

O que é blasFêmea? 
blasFêmea é a reconstrução do sagrado, uma reinvenção do sagrado, tirando-o dessa posição em função do macho. É o sagrado sendo reconstruído através do feminino. De todas as possibilidades do feminino. Em todos esses corpos representados e atuantes no projeto. Do feminino personificado por aquelas mulheres que estão em cena. Do feminino potencializado por todas aquelas mulheres que estão por trás das lentes. blasFêmea é justamente essa criação de laços. Essa criação de redes, de sustentáculos de apoio. De todas as pessoas que estavam envolvidas para tornar esse trabalho possível. blasFêmea não sou eu, somos nós. Esse é o ato profano e sagrado, o ato da união, de fortalecimento umas pelas outras, de umas com as outras. Amém.

- Imagens de making of de blasFêmea

Como blasFêmea nasceu e se desenvolveu?

blasFêmea é um "transclipe" porque rompe a lógica de videoclipe. Desde a sua produção, a forma como foi produzido, como foi pensado, a forma que foi estruturado e idealizado também. Existia uma semente do que eu pensava em relação à música, mas tudo foi se transformando. As coisas já existiam dentro de mim, mas foram se transformando, justamente porque o projeto aconteceu por meio dessa rede e de como ele se estabeleceu com o Melissa Meio-Fio. Esse projeto também são as pessoas que trabalharam nele junto comigo. Todas as pessoas que fizeram parte da equipe. Essas pessoas fizeram com que o projeto tomasse um tamanho muito maior do que ele tinha antes. O projeto foi se maturando a partir do momento que eu tive a possibilidade de realizá-lo. Eu me dediquei em pensá-lo. Na escrita do roteiro, na montagem da equipe que trabalhou comigo nessa, uma equipe majoritariamente feminina, nas pessoas que atuaram nesse “transclipe”. O projeto ficou ainda maior em relação ao que eu imaginava que ele poderia ser.    

 

Como se apresenta como narrativa?

O clipe não apresenta necessariamente uma história, mas uma narrativa que atravessa o clipe. Há um prólogo onde eu procuro materializar por meio de imagens – e de algum modo subverter isso – esse culto ao Falo, que eu enxergo em nossa sociedade e sobre o qual nós nos curvamos diante do “macho” e perpetuamos esse ritual sagrado. Acho que isso fica evidente nesta primeira cena. Tem outra narrativa na qual busquei mostrar a potência que eu enxergo no feminino, a capacidade de união e formação de redes e o grande leque de mulheres que existem, as “mulheridades”. E uma última parte, que integra o processo, que é um epílogo, que mostra um pouco da vivência que nós desenvolvemos antes da gravação do clipe e que já é material para a produção. A criação de um espaço seguro para o feminino, para toda essa gama de mulheres. Um espaço seguro para as mulheres e onde podemos demonstrar afeto, carinho, respeito, admiração, desejo, entre nós, entre o feminino, sem a necessidade de que tenha algum homem ali dentro. Tanto que nesse dia não havia nenhum homem naquele espaço, nem gravando, nenhum homem da equipe. Não porque achássemos que isso pudesse ser opressivo, mas sim porque achamos necessário que neste momento só estivessem as mulheres e as figuras femininas presente. Mais do que o produto final, blasFêmea é processo. Nele eu consigo ver a minha trajetória e consigo perceber a força nele através disso.

- Making of de blasFêmea

Como você imagina seu trabalho em meio ao ambiente da SP-Arte?

Enxergo a importância de trabalhos como o meu, os das gêmeas Tracie e Tasha e o do Alexandre Heberte estarem nestes espaços de arte. Principalmente porque costumam ser muito elitizados. Acho importante ter corpos pretos, tantos corpos trans, tantas mulheres, como o meu vídeo carrega, habitando esse espaço. Pela potência que esses corpos imprimem neste espaço de arte. É de grande impacto estar não só representados, mas atuantes dentro dessa feira. Ainda mais num momento como hoje, quando a cultura tem sofrido tanta retaliação e que tem sido tão perigoso para nós. Não só para nós que atuamos com cultura, mas todas nós que estamos passando por esse momento. A arte, para mim, sempre teve relação direta com a criação das nossas vidas, independente dos espaços de arte. Nós, que somos produtores culturais e artistas, precisamos estar dentro desses espaços, invadi-los, suja-los, contaminá-los. Os participantes terão a possibilidade de ver o material vivo, terão a possibilidade de ver a potência do feminino, eles poderão ver e compreender mais da minha rede de apoio e das pessoas que me acompanham. Poderão ver toda a força, resistência que eu enxergo no feminino. A força desbravadora do feminino encarnada em tantas mulheres, “mulheridades”. Verão a força que eu enxergo e que eu gostaria de construir no corpo e pelo corpo. Corpo a corpo.

Texto: Laura Artigas

Fotos: Núbia Abe