“Eu sempre olho para trás, e sempre faço isso de uma maneira muito descolada.

Não olho necessariamente com tristeza, nem com pena. Olho com um desespero, sabe? Desespero que nasce ao pensar “ah, se eu pudesse me ver”. Se, quando criança, toda perdida e confusa, pudesse me olhar, só por alguns minutos. Se eu pudesse voltar hoje, segura como sou, para pegar nas minhas mãos pequenas de unhas roídas e sujas aos 9 anos e sorrir para mim mesma, não precisaria dizer nada, só voltar – voltar e me olhar.

Como eu gostaria de me revisitar, de ficar observando de longe e, talvez um dia, cruzar meu próprio caminho durante alguma festa junina na escola, parar por alguns segundos e, entre as bandeirinhas, com o cheiro de biribinha no ar, dizer:

'Cometa todos os erros que cometeu, afunde-se em todas as dores que se afundou, permita-se errar bastante: isso te faz bem. Use mais o seu tempo para cuidar das pessoas que ama. Não se apegue demais a um cachorrinho lindo que vai cruzar o seu caminho e que você vai adotar e nomear ‘Baby’. Pega leve com a chapinha, porque um dia você vai esquecer ela ligada na cama, seu colchão vai pegar fogo e você vai se torturar bastante com a ideia de quase ter incendiado sua casa inteira por não gostar do seu cabelo natural – tipo um superaviso do universo. Você é linda. Linda de todas as formas – não como quer ser, não como acha que deve ser, não dessa forma errada que te fizeram acreditar ser a mais legal, mas linda como é; não por ser física, por ser carne, mas por ser alma, por ser mente, por saber mudar, por saber se adaptar e por ter aprendido a evoluir.'

Eu só queria me revisitar.

Sentar em uma poltrona e perder horas me observando. Me acompanhar na escola, em casa, me acompanhar nas brincadeiras com as colegas do prédio, e ficar maravilhada com a capacidade de mudança de um ser humano. Renovar minhas esperanças na humanidade e em mim mesma. Compreender de onde saí e aonde cheguei. Entender que tudo passa – absolutamente tudo.

Ainda bem que o tempo passa e as coisas mudam; ainda bem que é premissa básica do ser humano se adaptar ao seu ambiente. Somos tipo camaleões sociais, e temos vários anos para errar, acertar, errar de novo e aí ver se acerta de uma vez. A vida é louca, bem louca mesmo, e quando tempo passa, passa com força, transformando tudo, não deixando rastros muito fortes de passado.

Ainda bem que somos esponjas e conseguimos fazer as experiências, as observações e as sensações da vida diária virar ideais, paixões e gostos.

Não somos rochas, passivas só esperando o acúmulo de sedimentos ao longo das décadas. Tudo nos move, tudo nos aquece, tudo nos alimenta. Ainda bem que existe música, cinema, comida, sexo, poesia, cachorros, hortelã, por do sol, fotografia, política e esmaltes metálicos. Ainda bem que existe memória, e que ela começa a falhar em alguma altura da vida (sanidade mental agradece). Ainda bem que posso sempre entrar em algum espaço mental só meu, colocar-me frente a esse espelho inconsciente que não reflete necessariamente a minha imagem e semelhança, mas sim algo que já passou, algo de que me orgulho, algo que foi torto por muito tempo e que agora se ajeitou. Ou quase isso."

Fotos: Vtao Takayama