"Primeiro, uma apresentação. Eu não quero que ninguém se decepcione criando expectativas com uma apresentação release minha como: 22-anos-negra-lésbica-modelo-gorda-estudante-de-comunicação-produtora. Então, vamos pular essa parte e ir para o adjetivo que realmente me contempla.

Louca.
Quanto mais você conseguir descobrir minhas loucuras,
Tentarei ser a mais crua e sincera possível, pois só assim criaremos um laço – chá no sofá com coberta.

Louca.
Nasci quando o céu estava em uma posição curiosa.
Assim que dei o primeiro respiro, estava decidido:
Uma libriana com lua em sagitário, ascendente em áries e Marte em escorpião.
Ela vai ser doida, mãe.
Sou.

Louca.
Para piorar, moro em uma cidade igualzinha a mim.
Se São Paulo se personificasse em uma pessoa, nós iríamos nos amar e nos odiar e nos enlouquecer de tal maneira que a única solução seria irmos juntas para um hospital psiquiátrico. De mãozinhas dadas.
Eu amo essa cidade.
Pertencemos uma a outra.
Eu odeio essa cidade.
Não tinha como fugir, sou de uma família de loucas, do melhor tipo possível, e todas, há pelo menos 50 anos, nasceram por aqui.

Loucas.
Fora esse adjetivo, São Paulo e eu somos definidas com adjetivos iguais.
Piradas, insanas, doidas varridas, extravagantes, exaltadas, malucas, anormais, dementes, perturbadas, desequilibradas, desatinadas, lunáticas, maníacas, tontas, pancadas, zuretas, birutas e furtivas.
Difíceis de segurar, gostamos da liberdade, São Paulo e eu.
Estamos sempre em movimento, tentando se aventurar jogando-se no desconhecido.
E barulhentas, é claro.
Principalmente minha cabeça, que está sempre em um volume que nem a Marginal em véspera de feriado prolongado consegue proporcionar.

E molhadas.
No sentido mais puro da palavra.
Somos emotivas, e derrubamos nossas garoas e nossas lágrimas tentando aliviar um pouco desse peso imenso que carregamos.

Ontem, chorei por achar que não sou boa o suficiente, que não vou dar conta de tudo todos os dias (e quem dá?), que sou uma farsa.

Os meus pontos periféricos são sempre os com mais conflitos.
Nele, vejo os amores que já passaram pela minha vida e deram tchau.
Todas as mulheres que já passaram e deixaram uma marquinha por aqui, doidas.

Loucas.
Não é por maldade.
Eu sei que você também é.
Eu sei que você vai me entender.
Vamos ser amigos,
Seu doido."

Mayara escolheu um lugar de São Paulo para representá-la, a Vila Itororó, na Bela Vista, SP. "Uma vila escondida na que foi uma área residencial por muitos anos até que decidiram fazer reintegração de posse. Houve muitas lutas por parte dos moradores por uns 10 anos, tanto que foi tombada em 2013 como patrimônio histórico. Na frente do lugar está uma área de lazer e centro cultural a população. Você desce alguns andares encontra uma vila com as casas todas destruídas onde estão sendo realizadas diversas obras de reconstrução. É emocionante."

 

 

Fotos: Vtao Takayma e acervo pessoal