"Eu venho de uma educação muito religiosa. Fui disciplinada por doutrinas que privaram de mim o meu próprio corpo.

Me proibiram de ter os meus desejos. Fui um corpo regido pela culpa. Depois de conflitos, em um bastião de liberdade, resolvo me assumir. Hoje entendo que eu não estava me assumindo apenas bixa, mas também me assumindo corpo. Eu teria que abrir mão do círculo de pessoas que faziam parte da minha vida. Precisaria ser desassociada, expulsa da igreja, excomungada. ‘Uma maçã podre pode contaminar as outras.’ Era isso ou abrir mão de mim mesma. Decido comer do fruto da árvore do conhecimento, do que é bom e do que é mal.

E fiz isso da melhor maneira possível: me montando. Me permitindo ser quem até então não pude. Dando vida a uma parte de mim que até então nunca tinha visto as ruas, nunca tinha se visto no espelho. E esse foi só o começo. Além de me montar, comecei a fazer teatro, balé e dança contemporânea, apaixonada pela ideia de ter um corpo, de descobrir esse corpo, o movimento e outros repertórios e coreografias que haviam sido experimentados até então. Um mundo de possibilidades. E fui mergulhando cada vez mais fundo, até São Paulo.

Foi num retorno à São José do Rio Preto (onde passei minha adolescência) que algo mudou mais uma vez a minha vida.

Mudou minha forma de entender o corpo e de me entender desentendendo.
Quando uma grande amiga, que estava se descobrindo travesti, me disse que nosso mesmo grupo de amigues a estava questionando ‘por que virar travesti se ela era tão bonita de menino?', ela olhou para mim e perguntou: 'Você sabe o que é se olhar no espelho, todos os dias, e ter certeza de que o que está sendo refletido não é você?’

Essa pergunta foi crucial no meu processo. A partir dali, passei a me olhar com outros olhos. Passei a duvidar de mim mesma, da imagem tão bem construída, até então. A imagem do espelho que reflete ‘homem’ feito à imagem e semelhança de Deus. Ali, eu quebro esse espelho e passo a me vestir dos seus cacos. Fragmentos. Passo a duvidar das minhas certezas, a fazer das minhas dúvidas, movimento, e do meu corpo, território de investigação.

Quantxs mais eu poderia ser? Quantxs mais eu gostaria de ser? O espelho denunciava tudo aquilo que eu poderia ter sido mas não fui."

Linn em uma de suas performance, "Segunda Pele", no Encontro Hemisférico de Política e Performance. Vestida com os cacos do próprio espelho. 

 

Fotos: Vtao Takayama e Nubia Abe