Tem uma rachadura em tudo, é assim que a luz entra. 

- Leonard Cohen

 

  

Passamos por tanto. O que poderia ser uma campanha, um editorial, um filme de 1 minuto e meio sobre um artista paulistano andando por cafés do centro da cidade foram três meses de interação e troca. Profundo, luminoso, visceral. Verdadeiras relações são assumidas, discutidas, quebradas, reconstruídas - transformadoras. No Japão, por exemplo, os objetos quebrados são frequentemente reparados com ouro ao invés de cola. A pequena falha, antes destruidora, agora é vista como um símbolo único da história que carrega. E tudo aqui é dourado. 

 

O Meio-Fio pôs no palco 18 vozes, e escutou. Numeração de sapato, representatividade de raça, gênero e cor, linha de produção, corpo, individualidade, violência, educação, processo criativo e até memória foram temas abordados ao longo desses três meses, e todos devidamente absorvidos. Conhecemos os 9 refletores, adentramos realidades, percorremos caminhos e hoje, reconstruídos, encerramos a primeira etapa. Dos 9 projetos artísticos e autorais desenvolvidos pelos refletores para o Meio-Fio, 3 foram selecionados para serem materializados em 2017 com o apoio de Melissa. Com um senso de pertencimento, de grupo e de união, todos fizeram parte da escolha. Dos 3, um foi eleito pelo público, outro pelos próprios participantes e o terceiro, por fim, escolhido por um júri especializado. A voz de todos foi alta o suficiente para ser ouvida. 

Tracie e Tasha Okereke

A voz do público, comovida, falou pelas meninas cujo projeto é justamente o de vociferar o trabalho dos outros. Tracie e Tasha Okereke ganham, como um reflexo de seu engajamento com sua comunidade (e mundo), a munição necessária para conquistar a cidade através do seu coletivo MPIF e a valorização da arte de Mulheres Pretas Independentes de Favela. Tímida, no primeiro encontro do Melissa Meio-Fio, Tracie disse:

 

- Acho que todo mundo tem que, um dia, andar na garupa de uma moto no grau. 

- Ainda iremos, hoje a gente responde. Quando esse for o transporte de seu império, iremos todos.

 

Alexandre Heberte

Se justamente por seu jeito de falar - tranquilo e delicado -, se pela a excelência com a qual trama seu caminho pela arte ou se pelos bolos de banana que oferece aos visitantes de sua casa, Alexandre Heberte foi o refletor mais votado pelos participantes do Meio-Fio. Brincadeiras à parte, o artista-tecelão não encontrará resistência pela vitória, não quando durante três meses exibiu coerência artística, voz única e uma destreza pela cidade que nem sempre chamou de sua. Com um projeto que costura as regiões de São Paulo em um mapa de diferentes linhas e texturas, o legado de Alexandre será aclamado. "Um luxo!", ele se derrete. 

 

Linn da Quebrada

Unir, extrapolar, transformar; o projeto eleito pela comissão julgadora compartilha dos mesmos pilares do Meio-Fio em si. Paula Garcia, Diane Lima, Erika Palomino e Paula Borghi (conheça-as melhor aqui) debateram, reviraram e reviram até decidir: Linn.  Aquela que gritou pelo seu próprio corpo, seus cacos e colagens é a mesma que escreveu um projeto de muitos corpos, colaborativo e que dá voz (literalmente) àqueles que são calados pela cidade. BlasFêmea parte da arte para a transformação e apresenta um senso de unidade entre corpo, mente e espírito que é tão contagiante quanto emocionante. E será feito.

 

O Meio-Fio não acaba aqui. Até porque o meio-fio de São Paulo não acaba nunca e se você começar no Centro vai terminar no Jardim Peri e tem sempre alguém acordado pronto para conversar em um boteco 24h. E conhecemos muitos alguéns por aqui.

Todos incríveis. A escolha e votação dos projetos vencedores foi só uma porta das diversas com as quais cruzamos ao longo desses três meses - e das quais cruzaremos ao longo de 2017. Quando se tem conversa, lugares para ir e boas ideias, as trocas não acabam. Fica, então, um enorme agradecimento de toda a equipe Meio-Fio para todos os refletores e, por que não, conectores. Foi um prazer imaginar os escorregadores e arquibancadas na cidade possibilitados pelo Oficinave, repensar a própria individualidade em uma Horda Anônima e ver a união de Glamour e Zé Vicente se tornar tão intensa. Convidamos todos a conversar em um ônibus com Apolinário e "esmerilhar" todas as ideias possíveis para o mundo, ver os olhos de Dani brilhar enquanto descobre seu próprio poder e perceber como o cérebro das Estileras é muito mais ágil e interdisciplinar que o nosso - elas sofrem para falar nossa língua arcaica de quem não cresceu na internet. São todos nossa cola de ouro que possibilitaram o projeto ser tão iluminado.

 

 

Até mais, com exposições e novas ideias

<3

 

 

 

 

Fotos: Vtao Takayama