“Caminhando, saberá. Andando, o indivíduo configura o seu caminho. Cria formas, dentro de si e ao redor de si. E assim como na arte o artista se procura nas formas da imagem criada, cada indivíduo se procura nas formas do seu fazer, nas formas do seu viver”

 

- Fayga Ostrower



Quando fui chamado para participar da primeira exposição coletiva, não tinha um currículo de artista e nem sabia o que era uma Mini-bio. Aliás, nada sabia sobre o universo da arte da tecelagem e das tapeçarias. Era um ignorante. Tudo que eu tinha era muita vontade de saber mais.

Na época, meus principais defeitos eram: insegurança, baixa estima e estagnação na busca de conhecimento. Em compensação, as qualidades: vontade de mudar e ousadia para fazer diferente. Sempre quis ser artista, embora nunca tivesse estudado nada a fundo. Oi?!! Você quer ser artista e não sabe de nada? Putz!

Entendi que tinha de sair da ignorância, ler as coisas certas, procurar conhecimentos úteis que pudessem me auxiliar na realização das metas. Quero ser artista; então me pergunto: o que torna uma pessoa tal?

Quando o homem inventou essa história de arte? Sempre foi do jeito que é hoje? Quais os riscos de ser artista? Por que obra de fulano de tal vale tanto, e as que são vendidas na Praça da República valem mil vezes menos? Por que existem artes maiores ou menores? Por que ser artesão é inferior a ser artista? Artesão pode ser artista; e tecelão pode? Quem começou a fazer arte no Brasil? Bispo do Rosário é louco ou um dos maiores artistas brasileiros? O que Aracy A. Amaral pode me ensinar? Quanto vale o que eu faço, e se valor não tem que ver com preço, como relacionar e responder a todas essas questões e muitas outras?

Pensei: tenho de escrever minha história dia a dia, sem me preocupar com coisas irrelevantes. E acho que, ali, comecei a entender que tinha de fazer as coisas. Simplesmente fazer. Andar. Correr. Não ficar parado no lugar. Tinha de tirar partido daquilo que estava ao meu alcance a cada momento.

O homem inventou essa história assim. Pensava, relacionava, agrupava sensações e percepções: fazia, dava forma as coisas que pensava. Era mágico, era ritual. Pintou cavernas. O homem passou pelo período mais fértil da sua história, que era o de não existir nada e passa a dar forma às coisas pensadas. Coisas para representar. Algo para ser extensão de si mesmo. Ferramentas, utensílios, abrigos, tudo para viver melhor e proteger-se. Passou a formalizar pensamento, a refletir sobre si e sua fala.

Vieram as grandes civilizações, seus declínios; nascem Igreja, trevas, renascimento, guerras, revoluções. Poder do Estado. Poder da Religião. Arte que não era vista como arte, como entendemos hoje. A Filosofia separa-se da Ciência. Revolução Industrial que passa como um trator pelo artesanato, por antigos meios de sobrevivência. Nasce a estética. Surge o Impressionismo...

O homem aprendeu e criou a partir das problematizações geradas por suas ações. Cada novo invento, nova genialidade apresentada: eletricidade, luz, fotografia, vapores, navios, aviões... guerras. Tudo isso afeta o homem e sua relação com o mundo.
A arte está presente o tempo todo, como um espelho do tempo. Pois é isso que a arte é: o reflexo do fazer humano que narra, descreve e disserta sobre as histórias do próprio homem. Você já andou pela cidade e parou para pensar que, ao seu redor, absolutamente tudo foi inventado pelo homem, que tudo significa a forma como ele se vê e se representa, e se não existisse nada: seria mato, selva, bichos e você nu, ali?!

O currículo de artista se faz no dia a dia.

Na leitura de “Isso é Arte” (Will Gompertz), deixei-me conduzir pelos 150 anos de arte moderna, do movimento impressionista até hoje. Gompertz parece aquele nosso amigo que sabe tudo e adora contar histórias. E ficamos ali, horas, a ouvi-lo. Vivemos um café da manhã com Monet, acompanhamos Duchamp na compra de seu famoso mictório - sobre Duchamp ele diz: “redefiniu o que a arte era e podia ser”-, aprendemos que para Cézanne: “a tarefa do artista era chegar ao coração do que tem diante de si e expressar-se tão logicamente quanto possível”. Esse é o tipo do livro de fácil leitura, que nos prende como bom romance. Recomendo-o para os estudantes de artes visuais, como uma maneira interessante de conhecer a história por trás das obras primas, e também para começar a tirar as próprias conclusões do que realmente se trata a arte moderna. 

O que torna uma pessoa artista são suas práticas, pesquisas, aquilo que ele deseja comunicar, são todas as suas ações e escolhas de vida. Você tem que ser. Você tem que ter a certeza dentro de você. Tem que saber também que vai levar anos, caminho longo. No começo não há mesmo nenhuma exposição individual para colocar no currículo.

Em “O que é um Artista? ” (Sarah Thornton), somos apresentados aos bastidores da arte contemporânea, tanto das estrelas internacionais, quanto a nomes menos conhecidos do público. Com essa pergunta: o que é ser artista? Sarah teve livre acesso aos bastidores da vida de vários deles, acompanhou seu cotidiano em quatro anos de trabalho e centenas de entrevistas. O que eles respondem? São quase trinta artistas, entre eles a brasileira Beatriz Milhazes – ou seja, trinta opiniões sobre o assunto, gente que sabe o que faz. Pode ser que você concorde ou discorde de muito deles; uma coisa é certa, você vai se divertir; Thorton é “crítica e mordaz”, mesmo que o artista tente sair pela tangente e não queira responder, ela insiste.

 

Dou-me conta de que não existe fórmula para ser artista. Existe sim: persistência, muita sabedoria, luta, esforço, vitórias, derrotas, curvas, bifurcações, escolhas, fama e anonimato. Você no meio disso tudo: confie. Desconfie. Acho que um currículo acontece na história de vida.

 

Só que essa confiança tem de estar atrelada, senão ao talento, pelo menos à vocação. Isto é, significa dar cara e voz aos seus trabalhos desenvolvidos. Buscar sair da ignorância significa passar a entender a história do mundo, no caso do artista: a história da arte e o mundo que acontece. Como vivem seus pares, quem brilhou e quem naufragou ao longo do curso? Quem dita as regras?

Ser artista é ter inquietação interna para solucionar as próprias problemáticas do SER.

No livro “Arte e Mercado” (Xavier Greffe) tem-se algo mais técnico, que traça a história da arte desde sua emancipação da Igreja e do Estado até os novos mercados sociais estabelecidos. Fala-se sobre as mudanças notáveis por que a atividade artística passou, desde o século XVI. Toca em temas delicados - “admite-se que o sistema de guildas, ofícios e corporações levou, progressivamente à exclusão das mulheres de toda atividade profissional” e “os artistas ainda ganham mal e continuam tendo de curvar-se à política ou ao marketing econômico”, são exemplos dos assuntos abordados. O problema segundo o autor é que a arte não escapa da dimensão econômica. É preciso saber da história para poder ser posicionar sem medo!

 

Ou seja, cada vez mais a pessoa artista tem de saber seu valor. Daquilo que não tem preço dentro de si, pois só assim estabelecerá preços nos seus trabalhos – valores de troca para que ela possa, no mínimo, viver bem e com dignidade. Só que isso é bastante complexo, uma vez que envolve educação, meios culturais e o ambiente com que ela se relaciona.

Aracy A. Amaral, em “Textos do Trópico de Capricórnio” (volumes I, II e III) nos dá um banho de brasilidade! Nossa primeira grande arte devemos aos Índios. Quer saber por que o artesanato ainda hoje é menosprezado pela sociedade? Na época da escravidão, o branco brasileiro não queria trabalhar. Tudo era feito por negros e índios. Quando chegou a industrialização por aqui, a situação só se agravou. Nos dois primeiros volumes, ela nos guia por modernismo, arte moderna e o compromisso com o lugar. Escreve sobre os circuitos de arte na América Latina e no Brasil. Só aumenta a vontade de viajar mais pela América Latina. É tudo tão fascinante! Lamentável que não tenhamos meios de transporte que nos facilitem transitar mais pelo continente. Seríamos mais latinos; somaríamos forças. Foi de uma emoção retornar à Pinacoteca do Estado e olhar seu acervo permanente exposto com outros olhos àqueles que antecederam nossa arte moderna e contemporânea. Esses livros também são como um amigo que sabe muito e tem o dom de contar histórias. No caso dela, histórias reais e reflexões da nossa arte brasileira. No último volume, ela nos presenteia com artigos e ensaios sobre Bienais e artistas contemporâneos no Brasil. 

Um currículo de artista é feito com consciência, experiências, espiritualidade, pela razão e intuição; a coisa é no dia a dia.

Você tem de procurar participar dela. Isso inclui por exemplo, assistir a palestras de outros artistas, ler muito, estudar, praticar, assistir a documentários, sei lá, filmes, teatro. Nutra-se! Você não precisa estar em todas as aberturas das exposições (até prefiro ir no dia seguinte). O importante são as vivências que você pode gerar a partir dos universos que lhe interessam.
Ser artista implica você fazer o seu mundo girar! Dar forma; compartilhar e interagir. Avante! A estrada está diante você.





Fotos: Vtao Takayma

 

 

Alexandre está participando da Votação Meio-Fio

Depois das trocas de inspirações, histórias e experiências chegamos a uma nova fase do Melissa Meio-Fio: a exposição de ideias. Os Refletores foram convidados a desenvolver um projeto autoral que revelasse suas singularidades e devolvesse um pouco da força criativa que São Paulo oferece diariamente. Orientados por um Conector, eles receberam a chance de olhar para si mesmos, suas expressões e potências e criarem algo que refletisse seu percurso até aqui.

 

Descubra os projetos dos refletores e vote no seu favorito, 3 deles serão escolhidos e materializados em 2017