Às vezes, quando as portas estão fechadas, a melhor chave é a sola de um sapato.

Vamos conversar sobre o maior desafio para os criativos de São Paulo? Sabe aquela dificuldade de começar seu negócio, o medão de largar aquele trampo CLT, aquela incerteza de ser PJ? E quando você descobre que ter um bom portfólio não abre porta nenhuma? Quando você percebe que fazer um #TrampoLouco não é o suficiente enquanto não tiver a chancela de alguém importante e influente?

 

 

O mercado para os criativos de São Paulo parece amplo e em constante crescimento, mas vamos dar uma olhada com cuidado para esse clube fechado e cada vez mais difícil de entrar e também para o recorte curatorial realizado nas feiras e exposições de arte e design de São Paulo.

Semântica da Curadoria

Quem são os nomes por trás dos designers que expõem nas grandes feiras e mercados de design do Brasil? Qual o processo de curadoria de uma feira? Será que para ter uma chance é só eu submeter esse trabalho incrível para o crivo e análise de um curador?

 

 

O processo curatorial deveria demonstrar cuidado com a organização e com a seleção prévia de um conjunto de obras e artistas/designers. A intersecção entre curador e designer reflete não somente a composição estética entre os bens materiais e a cenografia de uma feira ou exposição, mas também um compromisso educacional com a sociedade, como mediadora cultural entre os objetos e a população. O papel inegável do design como solucionador de problemas e explorador de tecnologias fica cada vez mais insípido neste universo de feiras, exposições, mercados de design e afins, cuja curadoria presta-se, sumariamente, a preencher o vazio de um ramo de atividade cada vez mais cego e egocêntrico. 

 

Lina Bo e a Cultura Popular Brasileira

Um grande exemplo de curadoria foi a arquiteta Lina Bo Bardi, que, em 1963, na ocasião da inauguração do Museu de Arte Popular do Unhão, na Bahia, realizou a curadoria da exposição "Nordeste". Dividida em duas partes, a mostra apresentou trabalhos de artistas de Pernambuco, Bahia e Ceará juntos de objetos populares coletados em feiras e mercados da região. 

 

 

Essa quebra com a hierarquia curatorial de museus e com a erudição do objeto artístico representava, na época, uma ruptura radical com os modos de apresentar obras de arte. Esse tipo de dialética é raramente visto quando a temática de design é abordada. #Shade

O cuidado com a técnica expográfica dissipa completamente qualquer distinção entre arte e cultura popular, expondo pilões e carrancas nos mesmos blocos de concreto que serviam de suporte às obras de arte. O papel curatorial fica evidente nas minúcias da exposição.

Em 1969, Lina repetiria a temática, dessa vez no Museu de Arte de São Paulo, em plena Avenida Paulista. Trouxe seu acervo de obras populares para o centro econômico brasileiro. Agora a coleção de Lina pode ser revisitada no MASP, com releitura de cenografia feita pelo escritório de arquitetura METRO e com curadoria de Tomas Toledo. Uma nobre iniciativa e um sopro de esperança para um mercado saturado e altamente eruditizado.

Sublimação Territorial

 

Enquanto a cenografia e o conceito expográfico de Lina reverberam ao longo de 50 anos, a exposição 3XDesign, que aconteceu durante uma das principais semanas de design do Brasil, deixou bem clara a distinção "NÓS x ELES", exercitando à exaustão o mito fundador do nordestino migrante. A Exposição fazia uma leitura tripartida através das temáticas Brasil, Itália e Cariri, enfatizando o regionalismo presente no design brasileiro. Um esforço constrangedor de separar a produção do design propriamente institucionalizado da cultura popular e da produção cultural nordestina; uma força redundante que buscava aproximar, a todo custo, a produção industrial nacional ao design italiano #SindromeDeViraLata

No próprio release divulgado pela organização, o sertão do Cariri é descrito como uma "região isolada no Nordeste do Brasil", distância que somente se agrava com o exercício de estereótipos e regionalismos baratos – que começam pela cenografia de cada espaço. Os móveis e produtos apresentados no trecho Brasil possuíam uma cenografia etérea, quase europeia, com um backlight sereno, glorificando a produção de Niemeyer, Zalszupin, Arthur Casas e Sergio Rodrigues, dando a estes a chancela de "Design"; enquanto no pavilhão Cariri, a cenografia de pau a pique ao som de forró e com paredes que simulam terracota cria o espectro do que seria a produção folclórica do Nordeste. #CloseErradoMana

Do discurso persuasivo por trás dessa distinção, cria-se uma tensão real entre dois mundos, que passa despercebida pelo público em geral, porém reflete profundamente no discurso e no comportamento daqueles que consomem e vivem design. 

 

Se você chegou até aqui, mana, é porque você curte o tema, ou porque você é foda, ou porque tá só passando o tempo durante o job. Em todo caso, fica mais umas dicas de leitura. Vale dizer que muito do que a gente está escrevendo aqui só foi possível porque somos cara de pau o suficiente para frequentar como aluno ouvinte a cadeira "História do Móvel Moderno Brasileiro”, das incríveis professoras Maria Cecília Loschiavo e Tatiana Sakurai."

 

 

 

 

 

A exposição da Lina Bo Bardi no MASP, mencionada acima, é "A Mão do Povo Brasileiro" e fica em cartaz até Janeiro de 2017.

 

 

 

Fotos: André Romitelli, Martina Brusius,  Instituto Lina Bo e P. M. Bardi / Divulgação, A. Guthmann, Denise Mustafa

 

Bibliografia: Mito Fundador e Sociedade Autoritária, de Marilena Chaui

Móvel Moderno no Brasil, de Maria Cecilia Loschiavo dos Santos

Lina Bo Bardi: Sutis Substâncias Brasileiras, de Olivia de Oliveira