"Enquanto a estabilidade é compreendida como uma cura para a angústia, a incerteza geralmente é evitada ou recusada."

- Jochen Volz


Pluralidade, vida e as possibilidades que se criam a partir das incertezas é o que a Bienal de 2016 levanta. No espaço elaborado como uma agrofloresta, onde diferentes espécies criam raízes, crescem e convivem no mesmo solo, sem divisões, a mostra mistura obras que permeiam diversas estéticas e visões em um único lugar. Questões indígenas, feministas, africanas ou sexuais dividem o mesmo chão - e, como vemos na natureza, a pluralidade de espécies enriquece o solo. Permite novas criações.

Realidade, ilusões e as inúmeras vidas que levamos

Entre as produções de 81 artistas de mais de 33 países, MC Linn da Quebrada parou na frente da montagem "Mestre de Cerimônias", de Bárbara Wagner. Ali, e no curta metragem ficcional "Estás Vendo Coisas", a artista revela a vida dupla que dois artistas populares da cultura brega do Nordeste levam. MC Porck é famoso, mas também é cabeleireiro. Dayana Paixão é estrela, mas também é bombeira. Entre o emprego CLT que paga as contas e a vida de artista e ostentação, os artistas criam ilusões, bastidores, making-of das próprias vidas. Inúmeras realidades.

A Refletora, que recentemente trabalhou com Bárbara Wagner no filme de Marcelo Caetano, Corpo Elétrico (sem data de estréia), explicou seu encanto pela obra.

 

"Acho f*da o lance de revelar uma realidade e, ainda nessa revelação, criar uma outra realidade. Ela revela o processo, o que está além da imagem, do vídeo e da fotografia. Ao mostrar como aquilo é produzido, ela expõe a construção da ilusão. A criação dessas realidades. A obra revela a farsa que vivemos e que construímos. Bem mais que uma vida dupla, criamos muitas outras vidas - até para nos salvar. Ela nos obriga a ver a farsa da nossa realidade, a incoerência da nossa própria vida"

- Linn da Quebrada

 

 

 

Transformação e o medo do desconhecido

Nos anos 80 vimos uma sociedade tomada pelo medo da AIDS. Preconceito, acusações, dedos apontados cegamente para qualquer um que cruzasse a linha do conhecido e fizesse a curva diante da vida "normal" e heteronormativa. Hoje, e na realidade futurista criada por Luiz Roque na produção exposta "HEAVEN", o medo do desconhecido ainda é a voz que exerce poder e espalha conclusões. Ali, diante de uma epidemia de origem desconhecida, os órgãos de saúde levantam hipótese de que a transmissão do vírus seja pela saliva de transexuais. Daqueles que se transformam.

Em uma obra que discute gênero e preconceito, a conectora e atriz transexual, Glamour Garcia está presente. No papel de subprefeita da Sé, Glamour diz que, além de sentir orgulho de ter participado, ela se sente assustada pela a possibilidade do futuro repetir o passado. Como os direitos ainda são negados para toda uma classe de pessoas. 

 

"Ontem, quando assisti, não foi nem a questão da transformação ou o medo de se transformar que me tocou, mas sim, a urgência da sociedade de perceber o quão fundamental é a discussão sobre as necessidades das pessoas. O filme polemiza o futuro, mas é muito próximo do presente, ainda precisamos de tratamento, de saúde. Ainda precisamos lutar pelo direito do próximo. A minha personagem tenta trazer a indignação, tanto minha quanto do Luiz, de como algumas pessoas estão dentro de prisões e prisões e prisões de burocracia e tem que ficar provando por A e B que merecem um nome, que são quem são. Não é todo mundo que goza dos direitos de vida ou que consegue superar a violência e agressão da sociedade. O mecanismo estatal e todas as instâncias que regem nossas vidas controlam a ferro e fogo a liberdade das pessoas, não tem como escapar. Fico assustada com a ideia de que o futuro pode ser tão ou mais complicado que isso."

- Glamour Garcia

 

 

 

"A arte se alimenta do acaso, da improvisação e da especulação. Ela dá espaço ao erro, à dúvida e cria brechas mesmo para as apreensões mais profundas, sem evitá-las ou manipulá-las. A arte se funda na imaginação, e apenas através da imaginação seremos capazes de vislumbrar outras narrativas para o nosso passado e novos caminhos para o futuro."

- Jochen Volz

Com um grupo plural, diverso e receptivo, nós, do Meio-Fio, também acreditamos no poder da mistura de estéticas, questões e possibilidades para se criar novos percursos.

 

 

 

 

A Bienal fica aberta ao público até o dia 11 de dezembro, no Pavilhão do Parque Ibirapuera. 

 

 

Fotos: Meio-Fio