Em um grupo de brechó online no Facebook, ela disse: 

 

- Vendo tênis usado de corrida.

- Na fila, eu respondi.

 

Nos encontramos no metrô Sé para eu dar os R$10,00 e ela me dar o tênis. E foi assim que conheci Daniella Tinório, há uns anos, quando eu não imaginava que eu seria ela e ela não imaginava que seria eu. 

 

Decidimos voltar juntas, já que estávamos ali, e ir conversando durante as nossas baldeações. Eu contei que fazia ciências sociais e estava feliz da vida, meio perdida porém feliz. Ela me contou que costurava suas próprias roupas e que tinha uma máquina boa em casa. Nos identificamos. Nos adicionamos. Nos seguimos. Descemos cada uma em sua estação.

 

Acompanhei suas publicações no Facebook, vi a DMAMACITA nascendo, Dani colocando tranças e raspando o cabelo, se tornando a mulher que conheço. Mas, assim como vários encontros proporcionados pelo grupo de brechó no facebook, a identificação acontecia na hora da troca (a pessoa trouxe o dinheiro e você trouxe o produto: pontos positivos) e depois cada uma seguia o seu rumo.

 

Não mais falei com a Dani até o Melissa Meio-Fio bater na minha porta e pedir para que eu indicar alguém com um trabalho legal pra caramba, alguém que mobilizasse algo dentro de arte, moda, audiovisual. Dani era foda. O nome dela tinha que estar lá. E foi!

Admiro Dani Tinório enquanto mulher. Saiu de Guaianazes pro mundo mostrando o poder da mulher negra. Daniella Tinório mobiliza céus, terras, linhas e agulhas e faz seus sonhos acontecerem; suas coleções. Costurando cada uma das peças, ela coloca seu sangue e suor em cada um dos botões pregados.

Suas roupas contam historias, histórias de corpos negros e curvilíneos orgulhosos. Histórias de mulheres socialmente diminuídas que estão dentro de um processo gigantesco de tomada de posição, de valorização de sua identidade, de amor próprio e coletivo. DMAMACITA não é só uma marca de roupa, ela carrega verdade, carrega força, carrega garra e desejo de transformação.

É arma, é mensagem, é autoestima como ceifador de racismo e estereótipos negativos.

A coleção Sangue de Todas, pensada e elaborada para mostrar a mulher que se divide entre sagrado e profano, entre santa e meretriz, ser unida pelo sangue, por sua humanidade, é o projeto que Dani Tinório pode protagonizar na Galeria Melissa no ano de 2017, e é poderoso. É gigante. É necessário. Ele irá afetar, envolver, ele irá questionar para transformar. Acredito em Daniella Tinório e acredito na DMAMACITA, porque ela sou eu, porque eu sou ela, porque nós somos elas e nosso sangue é o Sangue de Todas.

 

 

 

 

 

 

O projeto Sangue de Todas está participando da Votação Meio-Fio

 

Depois das trocas de inspirações, histórias e experiências chegamos a uma nova fase do Melissa Meio-Fio: a exposição de ideias. Os Refletores foram convidados a desenvolver um projeto autoral que revelasse suas singularidades e devolvesse um pouco da força criativa que São Paulo oferece diariamente. Orientados por um Conector, eles receberam a chance de olhar para si mesmos, suas expressões e potências e criarem algo que refletisse seu percurso até aqui.

Descubra os outros projetos e vote no seu favorito, 3 deles serão escolhidos e materializados em 2017 

 

 

 

Fotos: Vtao Takayama e Érica Imenes

Video: Douglas Ferreira