"Quero começar exaltando a importância do teatro em minha vida.

Sem a vivência teatral eu jamais poderia ter alcançado artística e cotidianamente a consciência que conquistei. Foi ao participar e fundar um grupo de teatro na escola, ainda adolescente, que pude me conhecer, me estudar e - pela primeira vez - me amar.

O teatro infantil tem um poder vital artístico de renovação e também de autoconhecimento e desenvolvimento das propriedades e capacidades de todos os envolvidos. Abre caminhos para a criação de um vínculo real com nossa sentimentalidade - e seu estudo amplia a nossa articulação e conscientização do mundo ao nosso redor.

E aí recebi o texto da peça Joana Princesa.

A maravilhosa, encantadora e doce Joana - princesa - lembra-me dos dias de sonho, dos dias em que eu acreditava poder mudar o mundo. Diante desta personagem, tão singela e graciosa, posso conter em mim toda sua plenitude e vida - sinto que todo o meu caminho como atriz teve significado, posso lutar uma vez mais pelo feminismo, pela igualdade de direitos e pela população Trans.

Transformaremos nosso futuro, transpareceremos as nossas atitudes, transbordaremos amor á realidade, transpondo a arte em vida, transgredindo as dolorosas violências que jamais nos calarão!"

Glamour foi convidada para dar vida á Joana Princesa nos palcos.

"Joana Princesa é uma obra da literatura infantojuvenil contra a transfobia. O livro, de Janaína Leslão, é o primeiro conto de fadas brasileiro que narra a história de uma princesa transexual.

Quando nasceu, a pequena princesa de Ilha Anã foi chamada de João. Seus pais acharam que ela era um menino, já que trazia no alto da testa uma marca vermelha e não uma marrom nas palmas das mãos, como traziam todas as mulheres de lá. Acontece que o tempo foi passando e, conforme João crescia, mais pedia que fosse chamado de Joana. Em seu aniversário de sete anos, antes do tradicional passeio pelo reino, seus pais ouviram, atônitos, seu pedido de aniversário: 'De presente de aniversário, quero que me chamem de Joana para sempre. Eu sou uma menina!'"

Sobre a autora do livro:

 

Janaína, que é psicóloga e trabalhou questões ligadas à sexualidade, gênero e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) com adolescentes, também é autora de A Princesa e a Costureira, um conto de fadas sobre o amor que nasce entre duas mulheres de mundos diferentes. “O referencial de final feliz que eles (os adolescentes) tinham ainda era o dos contos de fadas. Quando conversávamos sobre questões de sexualidade e gênero de pessoas trans ou do amor entre dois homens ou duas mulheres, não tinham nenhum referencial na literatura, muito menos nos contos de fadas. Só pelo noticiário de jornal, que mostra uma lâmpada na cara, uma travesti esfaqueada. Isso me despertou a vontade de escrever. Fui pesquisar e não tinha nada nesse gênero de literatura, com essas temáticas trabalhadas em uma linguagem mais leve e acessível"

 

 

Sobre livros infantis e sexualidade:

Além do livro Joana Princesa, a jornalista, conectora e fundadora da primeira biblioteca multilíngue infantil de São Paulo, Duda Porto de Souza, menciona também A História de Júlia e sua sombra de menino, outra obra infanto-juvenil que aborda o tema da sexualidade em sua prosa - disponível em sua biblioteca

 

“A história de Júlia e sua sombra de menino” é um complemento maravilhoso para essa leitura. Clássico da literatura infantil francesa, escrito em 1976 por Christian Bruel e Anne Galland, ilustrado por Anne Bozellec, a obra só chegou no Brasil em 2010. Um texto poético e precursor, com belas gravuras em nanquim. Em entrevista concedida à Associação Francesa pela Literatura, Christian Bruel disse sobre a obra: 'Trata-se da história de uma garota que toma consciência das diferenças que há sobre a norma vigente e sua real identidade sexual, e decide se apropriar disso. Ninguém pode dizer que temos um discurso pedagógico a um tratado de como se comportar'. Identidade de gênero, o papel da mulher na sociedade e as condições de trabalho no mundo capitalista estão entre os temas abordados por Bruel  -e até então ignorados em seu país -, que o levaram a fundar a editora Le Sourire qui mord ('Sorrisos que mordem', em tradução livre), em 1976, marcando um período de profunda renovação no conceito de livros feitos para crianças. "

Créditos: Ilustradora Marina Tranquilin/Divulgação e Duda Porto de Souza