Foram nove meses de atividade. A cada dia um novo desafio, a cada conversa um novo aprendizado, a cada erro uma nova tentativa, a cada acerto um novo sorriso. Um projeto que desde o início não buscou definições. Não era sobre isso. Era sobre refletir, agrupar, por muitas vezes, incomodar. Ao perturbar o status quo e virar os olhares para as margens, o Meio-Fio apagou fronteiras de São Paulo e evidenciou novos artistas. Transeuntes de uma amálgama urbana formada por diversas histórias e vivências, por vários becos e avenidas, por dissonantes gritos e sussurros.

Os quatro dias da SP-Arte endossaram a potência narrativa e criativa dos artistas que expuseram, mas também de todos os outros que participaram do projeto e, que de alguma maneira, ajudaram no processo. Alê, Linn, Tasha e Tracie. O que vocês fizeram foi foda. Não. Foi muito foda. Como a Paula Garcia, curadora do espaço, disse; vocês trouxeram frescor não só para a feira, mas para a arte. Vocês surpreenderam pela sofisticação dos seus trabalhos, pelo profissionalismo e dedicação. Vocês não apenas fizeram parte, vocês quebraram barreiras e encantaram e assustaram os espectadores.

MPIF': Mulheres Pretas Independentes de Favela
Tasha e Tracie Okereke

Lembro que a Tracie disse antes do início da feira que "A arte você faz e solta no mundo. Quem tiver que ser tocado vai ser tocado." O espaço criado pelas meninas na feira foi idealizado a partir da performance que elas realizaram na Casa do Povo, espaço popular no Bom Retiro, quando eliminaram as divisas de um desfile convencional e colocaram público, modelxs, cabeleireirx, mesa de som e staff tudo no mesmo espaço. Um processo aberto, sem separações e visível aos olhos de todos.

Da periferia para a SP Arte, vocês aterrorizaram.

"O nosso corre é o do black money. Em qualquer coisa que a gente fizer vai ter negro em todas as etapas de produção. MPIF é “pan-africanista”. A gente vai criar um império assim."

- Tasha e Tracie Okereke

blasFêmea
Linn da Quebrada

Bicha, trans, preta e periférica. O caminho da Linn é traçado por fios desemcapados que ela não tem medo de tocar, sofrer um choque e a partir disso irradiar novas luzes e ideias. O vídeo de apresentação dela no Meio-Fio se chama "Eu não quero me finalizar". Ele foi gravado há nove meses e, de lá para cá, ela já se reinventou e se perdeu infinitas vezes. Na SP Arte, a Linn mais uma vez estranhou e se deixou ser estranhada. No seu espaço, exibiu seu experimento audiovisual documental, onde explorou a potência feminina através de diversos corpos e histórias que cruzam pelas suas andanças por São Paulo.

Terrorista do gênero, você transbordou.

 

"Tive a possibilidade de ser movida pelo meu próprio trabalho e perceber que isso tudo ainda faz sentido. Porque tem sentido e reverbera em mim. Me tira do lugar. Me faz ter mais vontade e de valorizar o processo."

- Linn da Quebrada

Trama São Paulo
Alexandre Heberte

Uma viagem por trinta e três regiões de São Paulo. Lugares que antes eram só pontos de passagem e que, a partir do tear presencial do artista, ganharam nomes, rostos e representatividade. O Alê foi espetacular, de uma intensidade e sensibilidade únicas. Durante a SP-Arte, além de apresentar os seus teares e o vídeo da sua jornada, ele foi instigado pela Paula Garcia a realizar uma performance. Foram quarenta e duas horas, em silêncio. Enquanto pessoas observavam, por muitas vezes interagiam, o Alê se mantinha calado, concentrado e inspirado nas histórias de desconhecidos que enxergou, olhou e sentiu. Não foi a toa que o conceituado site Artsy o colocou em destaque na sua página e o inseriu numa lista dos quinze melhores artistas para conhecer na feira.

Alê, muito muito obrigado.

"Tecendo em silêncio ouvi das pessoas muitos elogios, parabéns, sentia vindo do público que estava fazendo a coisa certa. Muitas pessoas tentaram falar comigo, e muitas delas não foram avisadas que era uma performance, e mesmo com esse estranhamento do silêncio, tudo vibrava a favor de continuar tecendo, agradecendo a Deus de estar ali, muito amor envolvido no que faço."

- Alexandre Heberte

O Meio-Fio dá uma pausa por aqui. Mas ele não está parado. Em breve, retornaremos. Novas histórias, novos artistas. Seguimos caminhando. Sempre em busca de experimentar.

A vida enquanto processo criativo.

Texto: João Francisco Hein
Fotos: Vtao Takayma
Vídeo MPIF': Hick Duarte
Vídeos blasFêmea e Trama São Paulo: Douglas Ferreira e Lucas Cabu