"Roupa Abrigo é o diálogo entre a matéria prima tão nobre e o lado mais urbano da cidade.

Andar nas ruas da cidade e se achar."

  

 

 

Passei minha vida toda escutando “tempo é dinheiro”, e São Paulo me fez entender que não, tempo é muito mais, tempo é conhecimento. Começar uma trajetória profissional como autônomo não é fácil. Como o estilista Weider Silveiro costuma falar: “gato, se você tiver resiliência, persistência, foco e não desistir jamais do que você quer, só assim, são grandes as chances de você chegar perto daquilo que almeja para si". Vira e mexe ele escreve umas frases ótimas nas redes sociais

 

Conheci Weider nas grandes noitadas de Fortaleza, na década de noventa. Frequentávamos os mesmos lugares, tínhamos muitos amigos em comum e, uma hora ou outra, acabamos nos esbarrando, conversando sobre trivialidades. Acho que é assim em qualquer lugar: você chega sozinho numa festa, não conhece ninguém, não fala com ninguém, talvez tome umas cervejas para se sentir mais corajoso e leve. Agora, se você frequentar a mesma festa durante três meses, toda semana, pode até chegar sozinho, com certeza já será conhecido, visto, as chances de relações começarem a se estabelecer são grandes. Por que você começa a ser reconhecido.

 

Passei um bom tempo sem encontrar o Weider. Foi só aqui em São Paulo que voltamos a nos ver, aqui e ali, em eventos no centro da cidade. Quão maravilhoso foi finalmente nosso reencontro a luz do dia, ele vindo na minha casa e falando "quero fazer roupas com seus tecidos". Luxo! Os tecidos manuais Off-White da nossa primeira parceria ficaram incríveis, a modelagem que ele fez transformou a matéria prima têxtil em roupas desejáveis.

Mas, até esse dia, eu tive que me reinventar. Quem leu meu primeiro texto aqui na plataforma vai saber que quando cheguei em São Paulo estava no fundo do poço, que a arte da tecelagem me salvou de um tempo sem tempo.

Criações de Weider Silveiro a partir dos tecidos de Alexandre (Verão 2016, Casa de Criadores)

Leia aqui seu primeiro texto)

 

 

Sim, concordo com Weider quando ele fala sobre o início de uma carreira, vamos ter que abrir mão de muitas coisas, inclusive de ganhar dinheiro. Até porque o correto, na minha opinião, não é ganhar, e sim fazer dinheiro. 

 

Eu trabalhei muito, investindo muito tempo na produção dos meus objetos têxteis e tecituras e ganhando muito pouco - o suficiente para não passar fome -, contudo, acreditando fazer as coisas certas, eu estava extremamente feliz de morar em São Paulo, cidade que me acolheu e me fez reviver. O ponto dessa história é que quando as pessoas começaram a me conhecer e vir visitar meu ateliê encontravam as tramas prontas. Eu tinha o que mostrar. Não fiquei esperando nada de fora, fiz a coisa vir de dentro. Talvez a palavra chave seja espiritualidade, isto é, você se conectar com o seu melhor. 

 

Weider diz que adora minhas tramas e construções manuais porque, ao contrário de mim, ele vive inserido no mundo de tecnologia. China, mercado têxtil capitalista, feiras de máquinas de teares industrializados, isso assusta-o, porque tem horas que você vê claramente o lado desumano desse processo. Para Weider, trabalhar com algo feito à mão, é tecer a vida. Por isso, em suas coleções, busca sempre trabalhos que resgatem tradições e saberes manuais têxteis. “Há muito do tecelão no tecido, trama e urdume como movimento humano, tecido manuais exclusivos, com certa irregularidade orgânica, sou apaixonado por isso”, ele diz. 

Roupa Abrigo é uma reflexão de Weider sobre o que representa para ele o Meio-Fio proposto pelo projeto. Durante o processo criativo pensou em fazer o oposto do que vem apresentando na Casa de Criadores, daí a modelagem ampla, não acinturada, uma roupa pensada para todo tipo de corpo, como um abrigo. Você protegido e exposto ao mundo, nessa interdependência constante. Como diz, “moda são os registros imagéticos de uma determinada época que fala muito sobre os costumes, crenças e ações da sociedade”.

Foi para celebrar a amizade e minha participação aqui no projeto Meio-Fio que convidei Weider para construir algo novo a partir dos tecidos manuais, tramados com palha de seda de Gustavo Augusto Serpa Rocha, amigo e dono da empresa O Casulo Feliz (do qual tive a sorte de ser seu assistente recente na oficina Do Casulo ao Tecido, a história da seda, no SESC Pompéia). Convidei também Leticia Veríssimo, nova amiga de faculdade e integrante do Coletivo Dois, para comandar sessão de fotos com a maravilhosa modelo Fernanda de Paula, que conheci entrando na FPA. A maquiagem é da querida Naira Maciel. O resultado é esse editorial incrível. Meninas, muito obrigado pela confiança.

 

Por último, queria falar que foi uma honra participar da primeira etapa do projeto Meio-Fio. Se cheguei até aqui é porque muitas pessoas me ajudaram nesse caminho. Dentre tantas que me estenderam a mão, quero deixar um registro de gratidão aos amigos e amores: Italo Volpato, Siebert Tavares, Pedro Sales, Daniel Peixoto e Luiza Helena. Por que foram eles que no fundo do poço mais me estenderam a mão, além da minha família, sempre do meu lado, com muito amor e fé! 

 

Obrigado Weider, Letícia, Fernanda.

Obrigado Melissa. Obrigado toda equipe Meio-Fio. Viva!

 

 

 

 

 

O projeto de Alexandre, Trama São Paulo, faz parte da Votação Meio-Fio

Depois das trocas de inspirações, histórias e experiências chegamos a uma nova fase do Melissa Meio-Fio: a exposição de ideias. Os Refletores foram convidados a desenvolver um projeto autoral que revelasse suas singularidades e devolvesse um pouco da força criativa que São Paulo oferece diariamente. Orientados por um Conector, eles receberam a chance de olhar para si mesmos, suas expressões e potências e criarem algo que refletisse seu percurso até aqui.

 

Descubra os outros projetos e vote no seu favorito, 3 deles serão escolhidos e materializados em 2017

 

 

Criação: Weider Silveiro

Fotos: Letícia Veríssimo

Modelo: Fernanda de Paula

Beleza: Naira Maciel