as refletoras Tasha e Tracie Okereke, em um dos lados da calçada

 

Descobrir, projetar, lançar novos nomes; realizar as coisas de um jeito novo; me jogar no escuro do que não sei fazer ou do que nunca havia feito; procurar por algo que nunca fiz. Chegar perto do talento em estado bruto; estar perto do talento iluminado por ideologias e ainda não-lapidado pelas frustrações... Tudo isso me motiva, me move, me comove. Daí que eu não poderia estar mais feliz por (mais) essa muito maravilhosa oportunidade que trabalhar com a Melissa me trouxe: fazer parte do projeto Meio-Fio. Atuando como consultora/ conselheira / “palpiteira oficial” dessa iniciativa que já entrou para a história da cidade – e do Brasil –, pude conviver com pessoas extraordinárias e com elas viver transformadoras experiências. Sou hoje alguém diferente do que era no início do ano. 

 

Ah, o pretexto deste texto é porque se aproxima o final da votação (encerra-se no dia 15) para que o público participe escolhendo pela realização do projeto de um dos 9 artistas refletores. Porém, da mesma forma como no Meio-Fio em si, isso não é o mais importante. O processo aqui é o que importa. Então, aproveito para dividir algumas intimidades.

 

O conector Gustavo Silvestre cria a sua "Melissa Tijolo"

 

Começamos tateando, sem saber onde é que iríamos chegar, entendendo as curvas da estrada enquanto caminhávamos, correndo os riscos inerentes da aventura. Como sabe todo peregrino, um diário de ansiedades e surpresas de todos os tons.

Eduardo Costa, um dos conectores escolhidos para mapear novos artistas

 

A pegada do projeto em si já me surpreendeu. Não, a marca não queria falar com influencers, makers, instagrammers, youtubers, snapers e etc. Para isso mantém seus canais específicos, e que cumprem com êxito sua tarefa. Também não estava atrás do hype, do cool, do último grito, da última grita, da hashtag da modinha. Fosse isso e tudo seria beeeem mais fácil. Pra todo mundo. Escolhemos o lado da calçada (ou do meio-fio mesmo) que pega sol. Se muitas vezes, pessoalmente, preferi este à sombra da mediocridade, quando se trata de uma marca do tamanho da Melissa correr esse nível de risco é algo a, no mínimo, se admirar (por isso, o Meio-Fio está deixando de olhos abertos e cabelo em pé todos os departamentos de marketing do país, mas deixa quieto que também não é esse o assunto, nem meu nem do projeto).

 

Um dos objetivos sempre foi o de tentar entender São Paulo. Tá, algo que nem Mário de Andrade, Caetano ou Rita Lee conseguiram explicar a contento. Talvez porque, diferentemente do Rio com seus mares e morros - pelo menos geograficamente mais fácil de decupar – São Paulo é, na (in)definição de Itamar Assumpção, outra coisa.

 

Desenhou-se, entre reuniões, chats, e-mails, skypes, calls e tudo-mais, uma lista de 9 nomes para indicar cada um deles 3 pessoas, que depois de avaliados por uma comissão interna do projeto iria virar outra lista de 9. Estes dezoito foram acompanhados durante 3 meses pela gente e pelo público, nesta plataforma em que você me lê (passeie por ela para se deixar levar e querer mais no final). Os nove iniciais (chamados de Conectores) já são interessantes o suficiente para render um super projeto. Nátaly Néri, Glamour Garcia, Duda Porto de Souza, Gustavo Silvestre, Verena Smit, Chantal Sordi, Eduardo Costa, Mayara Efe e Bia Bittencourt têm muito a dizer. E disseram, desde a reunião 1, numa garagem transformada em espaço co-working em Pinheiros ou, mais recentemente, na inauguração da pop-up store na Galeria Melissa (uau!, quem imaginou que isso poderia acontecer?, nem a gente!). Com a característica de esses 9 serem o recheio de um polissônico sanduíche, o que queríamos era chegar nos ingredientes, para quem essas pessoas tão especiais olham para saber o que está rolando (eles foram batizados de Refletores). 

Queríamos ser surpreendidos: estávamos atrás de nomes de quem de quem nunca havíamos sequer ouvido falar. E eles vieram à tona.

Zé Vicente e Apolinário, nomes que surgiram

Olha que estamos falando de quem trabalha com isso, de quem põe leite em casa escarafunchando a internet, indo a lugares obscuros e seguindo pistas desencontradas justamente sobre “o que está rolando”, buscando fazer algum sentido. O critério mais importante (mais do que o número de seguidores, portanto) foram a criatividade e o potencial de realização. E gosto do fato de que aqui “novo” não queira dizer “jovem”, mas fresco, de caminhos abertos, mãos e mentes generosas. 

 

Um dos preceitos de Joseph Beuys é o de que todo mundo pode ser artista. A revolução somos nós, dizia o alemão. As gêmeas Okereke devolvem em português: quando os outros fazem é artista plástico, quando a gente faz é manufatura. Não por acaso elas estão no alto da votação. Alguns torciam o nariz para as meninas: mas o que elas fazem? Pra começar, elas existem.

 

Querendo ou não, como se diz por aí, Tasha e Traice são revelações do Meio-Fio, com seus planos de dominação feminina e negra, sua charmosa debaucherie, o humor cáustico (quase sempre dirigido uma à outra) e a verdade na-sua-cara. A verdade, aliás, é a chave do sucesso delas e de todxs que o projeto viu e fez brilhar, como Linn da Quebrada e Alexandre Heberte (este a inesperada e inequívoca unanimidade do Meio-Fio). Já quem forçou a barra, quem encheu o saco à toa, quem quis protagonizar demais, problematizar demais, quem ainda não tem muito claro seu senso de propósito ou está (só) a fim de visibilidade não encontrou a mesma vibração do outro lado. As pessoas em São Paulo não têm tempo a perder, nem mesmo com causas justas. E a cidade exige mais do que talento. 

 

Excelsa garra na batalha por seu espaço complementa, por supuesto, os atributos de nossos refletores: Apolinário, Dani Tinório, Estileras e Aline Tima trazem versões de um corpo-manifesto em que a roupa funciona como mídia/veículo, aprofundando a própria discussão de #mortedamoda, enquanto a dupla Pistache Ganache por sua vez pretende atuar na crítica aos cânones de um design de estrutura mais padronizada, todos com forte conteúdo social.

 

[Por falar em justiça, o grupo de Conectores e Refletores tem um voto também para a realização de um dos projetos. Assim, combate-se um possível efeito de ganhar quem tem mais likes. Um júri especializado fica com o terceiro voto, para garantir que seja produzido também um projeto de impacto para a cidade e aderência ao conceito Meio-Fio.]

Ao longo desses meses, questões pertinentes a todas as realidades emergiram, e discussões relacionadas a gêneros e a representatividade dominaram os encontros e conversas, no online e no offline. E se ainda faltava alguma constatação, o Meio-Fio comprova que precisamos falar – e fazer mais – sobre esses tópicos (leia mais na seção Pontos de Vista pra uma aulinha rápida). Além disso, no Meio-Fio “descobrimos” que a parte faz o todo, que sim, todo mundo tem problemas, que perrengue não é privilégio de ninguém e nos permitimos nos emocionar com as fraquezas e forças trazidas à tona depois do workshop da artista performática Paula Garcia, quando ficamos em silêncio por horas para depois nos descobrimos à flor da pele. Neste momento, talvez um dos mais significantes desse período, fomos para um um sítio (ironicamente fora de São Paulo, portanto) e acabamos por nos encontrar com um personagem insólito: o famoso “eu”. A partir dali, o nível de empatia foi à milhão, crescemos em unidade, intimidade e pertencimento. 

 

Quem não se conversava se ouviu, quem não enxergava o outro olhou direito, direto. E isso serve de analogia para o valor deste projeto. Quer exemplo? O refletor Zé Vicente, em um dos melhores projetos em votação, tomando como musa a estonteante Glamour Garcia.

Martina e André, do Pistache Ganache

 

A cada encontro com os "meio-fioers" sou tomada por um nervoso digno de blind date. Fico sem saber me comportar, o que falar, onde colocar a mão. Na volta, me sinto agitada, falante, empolgada, querendo fazer. São muitos egos e ids, energias, dramas, risadas, fatos e fotos, em tempo real, a vida não apenas como processo criativo, mas como vida mesmo. Totalmente inspirador.

 

O Meio-Fio chacoalha as fronteiras de zonas e bairros, incentivando o fluxo no nível físico e no nível das ideias, encurtando trajetos. Aproxima pessoas, aglutina sotaques, rompe paradigmas, quebra clichês, zoa o barraco e torna o rolê mais suave. Se isso é muito? Na cidade de São Paulo, é alguma coisa. Queremos mais.

 

 

Erika Palomino

São Paulo, dezembro de 2016.

 

 

 

 

PS: Last but not least, precisamos falar de Paula Borghi, curadora de arte, que fez a diferença no corpo a corpo com os Refletores e na conexão com o grupo, em seu papel de Oráculo, desempenhado com paciência, perseverança e carinho. Já a Hood cuidou da produção, materializando ações e encontros. Um salve master vai para Cassio Prates, da Melissa, por sua sensível e gentilíssima gestão do projeto.  Sem ele, nada disso estaria acontecendo. 

 

Fotos: Vtao Takayama e Vivi Bacco