"Às vezes entro em umas piras muito loucas de pensar sobre o universo, sobre essa realidade e outras possíveis.

Já usei muito tempo útil pesquisando e refletindo sobre teorias da conspiração: buraco de minhoca no tempo, possibilidade de velocidade de dobra Warp para viajar mais rápido que a velocidade da luz. Entre todos os meus questionamentos à respeito da flexibilidade do tempo-espaço e da possibilidades de subversão da ordem natural das leis de Newton, o maior deles, com certeza, é aquela velha pergunta: é destino ou é fruto do acaso? É coincidência ou era pra ser? Você estava no lugar certo na hora certa ou já havia um plano traçado para a sua vida desde que nasceu?

Ao mesmo tempo em que sou uma pessoa cética, acredito em tudo. Contraditório, eu sei. Mas luto com essas duas personalidades há muito, principalmente depois que comecei a estudar Ciências Sociais. Acredito na sujeição do ser humano às pressões sociais ou no poder dos astros e na força da astrologia como elemento que pré-dispõe personalidades. Levo um pouco dos dois no meu coração (que meus professores não me ouçam).

Quando olho para meu passado e tento buscar pistas do que me constituiu como o ser humano que sou hoje, percebo que minha vida é formada por processos.

Ela foi feita de momentos importantes e nem tão importantes que foram se mostrando a mim e, de forma consciente e inconsciente, tornando-se fundamentais para a minha formação enquanto ser pensante no universo. Fruto do acaso – ou do grande livro dos destinos e do que está escrito no capítulo ‘Nátaly Neri’ –, a vida foi me empurrando e eu fui me deixando levar em algumas situações. De algum modo, sempre ouvi as coisas certas, sejam elas para o bem ou para o mal.

Na pré-escola, estudei em uma escola de freiras. Elas eram rígidas e me obrigavam a comer bucho (o que me traumatizou muito e, com certeza, foi um dos motivos que me fizeram ser vegetariana hoje – obrigada freiras). Todos os dias, eu chegava chorando às 6h da manhã. Minha mãe, antes de ir para seu trabalho, me levava para a escola, e eu ia me segurando pelos postes ao longo do caminho. No portão, era necessário que os inspetores ajudassem a me puxar para dentro porque, se eu tinha um dom naquela época, era o de ter forças nas mãos e me agarrar firmemente a qualquer poste ou coluna. Acho que chorei todos os dias durante muito tempo nessa época, até que um dia, sabe-se lá porquê (destino ou acaso), decidi que não iria chorar. Entrei sorrindo e por vontade própria, sem que fosse necessário o uso da força. Minha mãe sorria orgulhosa para mim no portão e os inspetores me felicitavam, em câmera lenta, sorrindo e dizendo ‘parabéns, menina’, enquanto eu entrava cheia de orgulho com meus poucos centímetros de perna na escola. Descobri, naquele momento, como era bom deixar as pessoas orgulhosas. Subi as escadas, e queria que todos vissem que não haviam marcas de lágrimas no meu rosto e que minhas roupas não estariam amarrotadas dessa vez.

Cheguei em minha sala junto com uma outra pessoa que entrava comigo. A professora perguntou ‘Fulana que entrou junto com a Nátaly, ela se agarrou no portão de novo para entrar?’, e a cabeça oca ao meu lado respondeu: ‘Sim’. ‘Então, Nátaly, vai ficar uns minutos no canto da sala com a cara virada para a parede para parar de fazer isso’, e eis que fui castigada no único momento em que fiz a coisa certa. Como doeu o gosto da injustiça. Como doeu ser uma pessoa sem credibilidade. ‘Eu entrei andando sozinha! Por vontade própria’, e a sala ria em câmera lenta e me olhava com olhos de quem ouvia piada: ‘MUAHAHAHA até parece. Fica quieta aí no canto.’

Aquele dia foi muito importante na minha vida, pois aguçou meu senso de justiça e a minha vontade de matar pessoas quando elas mentem.

Um pouco mais tarde na vida descobri que eu era pobre. Pobre de verdade. Foi aí que entendi que dinheiro era um negócio que as pessoas valorizavam e que, por eu não ter nenhum, eu estava em maus lençóis. Acaso ou destino, a vida me fez sair de São Paulo aos 12 anos por uma série de acontecimentos muito loucos que até hoje não entendo, e me levou de volta à minha cidade natal, Assis, no interior de São Paulo. Um lugar legal até para quem não tem grana para nada – afinal, quase tudo era de graça. Um dia, no ensino médio, gritei com uma inspetora porque, naquela época, eu era uma menina cheia de problemas e inseguranças e andava de luvas no verão, achando que minha mão era muito grande e, por isso, querendo escondê-la. De alguma forma muito louca, o fato de eu sair de luvas e de existirem pessoas que não me deixavam ser estranha na minha acabou comigo gritando com uma inspetora que, seja por destino ou por coincidência, conhecia a minha tia, e não só a conhecia, como também era amiga íntima, BFF. Minhas amigas disseram ‘Nátaly, acho que você vai se encrencar’, mas ninguém se encrencava: era escola pública, todo mundo gritava com inspetores. Acaso ou destino, cheguei em casa com uma comitiva me esperando, todos os parentes: eu era a desgraça da família, o motivo de vergonha.

Naquele dia, me senti pior que a larva da mosca no cocô do cavalo do bandido. Foi importante.

Outra vez briguei feio com pessoas que eram importantes para mim, saí pela rua me sentindo a bad girl e fui assaltada. Voltei com o rabo entre as pernas e pedi desculpas. De alguma forma, seja acaso ou destino, sempre existiram coisas que me obrigaram a ser uma pessoa decente. Eu nunca consegui sair ilesa de algum erro que cometia. Eu via todo mundo se dando bem, e quando eu errava, a coisa caia por terra. A primeira vez que colei, fui pega. Meu mundo caiu – afinal, pessoas colam há gerações! É quase uma tradição escolar! Por que aquilo não daria certo comigo? Não deu. Nunca mais colei na vida, o que me ajudou, porque nunca mais fiz uma prova sem estudar e isso me fez aprender uma coisa ou outra.

Se o destino existe, ele é uma pessoa em uma poltrona se sujando de pipoca enquanto ri das desgraças que sofri ao longo da vida. Se existe um livro dos destinos, está escrito que eu não posso ser alguém socialmente tido como ruim, porque, olha, eu tentei.

Tentei ser uma pessoa desviada dos bons preceitos morais durante muito tempo. Nunca perdi uma oportunidade de subverter a ordem. Tentei ser a bad girl que assistia nos filmes, mas a mão pesada do acaso ou do destino sempre veio contra mim de uma forma muito dedicada. A lei de Murphy foi criada com a observação do meu dia a dia.

As coisas boas também aconteceram – não serei injusta com esses relatos da minha vida. Uma vez, acaso ou destino, tive um tempo livre, ocasionado por outras coincidências anteriores. Nesse tempo livre, decidi escrever um texto que caiu nas mãos da pessoa certa e fez com que eu viajasse para outra cidade para assistir a umas apresentações. Coincidentemente, conheci, no saguão do hotel em que eu estava, um outro alguém, que me disse uma das coisas mais importantes da minha vida: “Ninguém quer ser uma pessoa ordinária.” Voltei para a minha realidade com a cabeça estalando, e segui anos da minha vida com essa frase se manifestando consciente e inconscientemente quase todos os dias da minha vida. Se fosse para ser algo, que fosse bom ou ruim, mas ninguém queria ser ordinário.

A vida não me deixava ser ruim, então só me restava o outro caminho.

Trinta milhões de fatos me levaram para aquele saguão para ouvir de um desconhecido a frase que, com certeza, mudou o rumo dos meus pensamentos. Se eu fosse alguém muito rico e importante, teria certeza que aquele homem era o Leo DiCaprio sendo pago para entrar em meus sonhos e me plantar uma ideia no meu terceiro nível de inconsciente como ele e a equipe dele fizeram em Inception.

Ouvi muitas coisas boas e vivi muitas coisas ruins que, com certeza, foram moldando meus rumos e meus pensamentos. É triste pensar que é destino, pois isso me tira todo o controle da minha vida e, em uma sociedade tão meritocrática como a nossa, não ter em nossas mãos as responsabilidades por nossas vitórias dói um pouquinho. Por outro lado, fazer com que a vida seja fruto do acaso faz com que cada acontecimento, vitória, conquista ou perda na minha vida passe a ser acompanhado por uma nota de rodapé que diz “que cagada hein”. E quem quer ser fruto de cagadas consecutivas para sempre? Quem quer que a vida seja fruto de sorte? Em uma sociedade de pessoas tão vaidosas, é muito triste saber que, se você tem algo, é porque a vida cagou em cima de você e lhe deu muita sorte ou azar. De todo modo, o acaso ao menos lhe dá espaço para agir, e a cagada, na maioria das vezes, acontece como fruto de suas ações.

Gosto da ideia de destino, por outro lado, porque me deixa solta na vida. É um balançar de ombros: se meu destino já está tomado, então nem preciso esquentar a cabeça e me preocupar com ele. Mas, se for destino, não sabemos seus limites, afinal, ele pode se encaixar nas contradições do tempo-espaço e a sua realidade pode mudar só pelo fato de você saber o que vai acontecer e esperar para que essa coisa aconteça.

Para mim, a maior pergunta do universo é essa: “é destino ou é acaso?” Acho que a resposta pode ser 42."

 

 

 

 

 

Nataly grava seus vídeos e fala com uma geração de meninas de todo o Brasil sobre empoderamento, beleza e cultura negra da sua casa, em Guarulhos. 

 

Fotos: Vtao Takayama