Nascer, viver e morrer. Em tese, um ciclo simples, porém, na prática, um grande acúmulo de intempéries socioculturais e financeiras regidas pela hereditariedade de informação (não só genética, tá ligado?).

 

- Puta papo brabo, mano, seja mais palatável, disse o interlocutor. 

 

Óbvio, é suave ser o primeiro a querer afago quando a maior parte do sistema te considera uma potência e potencial. Potencial esse que, particularmente, enxergo em todo corpo… Principalmente no corpo marginal, nas minorias de privilégio. A situação faz o ladrão, e tenho roubado da boca da elite branca um pedaço da informação e um fragmento minúsculo do giro monetário, e os cara ficam como? #CETALOCO

Dia 11 de novembro: o primeiro passo na direção dessa injeção de energia criativa nos corpos marginalizados, meu desfile na Casa de Criadores. Quem é que quer ver preto bem-sucedido? Rapazinho que podia ter dado errado inúmeras vezes, mas conseguiu contornar a realidade intrínseca à sua vivência e está dividindo espaço e holofote com as manas da Santa Marcelina (nada contra, tenho vários amigos que estudaram lá). Um evento de grande porte e relevância no mercado de moda nacional, e nóis fechando a semana, e abrindo o dia, dando o tom e a malemolência...fazendo o reggae comer frouxo! 

Um desfile com 15 entradas e quase 50 pessoas na passarela. Uma energia descomunal, uma ode aos rolêzinhos. Maestrado por Lay, começamos declamando Castro Alves e “O Navio Negreiro”.

" Stamos em pleno mar... Doudo no espaço 

Brinca o luar — dourada borboleta; 

E as vagas após ele correm... cansam 

Como turba de infantes inquieta.

 

 

'Stamos em pleno mar... Do firmamento 

Os astros saltam como espumas de ouro... 

O mar em troca acende as ardentias, 

— Constelações do líquido tesouro...

 

 

'Stamos em pleno mar... Dois infinitos 

Ali se estreitam num abraço insano, 

Azuis, dourados, plácidos, sublimes... 

Qual dos dous é o céu? qual o oceano?..." 

Nóis lê e continua falando errado, porque quando os “fdp” vieram ensinar o português pros meus antepassados eles sucatearam a informação, então nóis é letrado, mas nóis fala errado mesmo. Reclama com a monarquia lusoescrotal, tá?

 

O Navio Negreiro foi a inserção pro que viria. Tiraram os rastros da minha árvore genealógica com  a escravidão, mas agora nóis tá desenhando ela do zero e ESTAMOS EM PLENO MAR, prestes a issar as velas e abortar nas terras desconhecidas, desta vez armado até os dentes, armado com informação traficada internamente. Somos um crime organizado, somos uma nova facção!

 

- SIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIM, GHETTO WOMAN! Minha Gang é do guetto e elas são más! 

 

Foi com os versos de liberdade do corpo e empoderamento das curvas cantadas por Lay que o baile teve início.

Encabeçados por Viviane Oliveira - mana que fez coisa pacaralho, já até desfilou o Cruise da Vuitton esse ano - abrimos o caminho pra nova saga de guerreiros. Ogum abrindo passagem e validando cada novo guerreiro que entrava na passarela.

 

Exército que deu um trampo federal conquistar! Tivemos quase 3 dias de casting. Pleno 2016 e as agências ainda não enxergam beleza no corpo negro, acabam tendo 10 modelos na sua lista de agenciados e liberam (ou avisam dos trampos) um ou outro e olhe lá! O general desse batalhão maravilhoso foi Heitor Bottini, um batalhador real da mudança. Foi ele que falou com todas as agências em São Paulo e, assim, foi por causa dele que conseguimos criar um casting de peso só com new faces. O cara é foda! <3 Eu poderia ter ficado com os 10 modelos que apareceram nos dias de casting sediados pela Casa de Criadores? Poderia, mas como eu ia tá fomentando oportunidade e mudança? Isso dá trampo e vai além da fala - e fala até papagio aprende, como diria Mano Brown.

 

Verso a verso, fizemos da passarela espaço de desfile real, em uma beleza digna de realeza africana. Tranças desenhadas por Monalissa (uma negrona que chega sem ser anunciada, que emana amor, sem precisar abrir a boca!) e olhos pintados um a um por Mel Freese, quase um ritual!

 

Deise Nicolau vestia a pele preta desnuda e descoberta, para o papo ser reto e bem dado:

- PARDO É PAPEL SEU ARROMBADO! Não tente embranquecer minha vida e nem minha pele. EU SOU PRETA MEIXMO!

Jóias que traziam nosso passado, mas com um belo toque de futuro. Iury Trannin e Alexandre Pavão foram peças fundamentais na construção de toda a narrativa da festa. Pedras de resina que pareciam fragmentos de gelo com jóias incrustadas e pochetes de strass, faziam de nossas princesxs, o AFRONTAMENTO!

E, assim, fechamos o corre com toda a equipe e amigos que representam o mais importante da Cemfreio: as pessoas! Somos a mudança pela realidade das pessoas, tamo no corre do humano. Não somos empresa, somos empresários de vibrações e vibes! Tanto que, mesmo saindo em vários pico e vivenciando tanta parada foda com o evento, o mais prazeroso foi ver que todo mundo do staff tava trampando com amor, amor gratuito. Por mim, pela causa e claro pela mudança.

 

Eu deixei pro final, para ser com chave de ouro, pois sem eles eu nem sei se estaria aqui fomentando esse trampo, não nesse nível.

 

Valeu, Gabi, tu se tornou meu porto seguro em menos de um semestre, nem sei como agradecer. Realmente, cada dia contigo é um aprendizado novo. Ás vezes eu acho que tu é a patroa e eu sou o funcionário preguiçoso que entrega mas dá um trabalhaaaaaalooooooooo! Espero que essa vida seja pouco pra gente dividir todo o amor que temos um pelo outro, né mozão? E o bonde 100caô: Carol Amorim, Paula Falbo e Thiago Berto e Bittencourt, amo vo6.

Nesse rolê todo ganhei coisas que sempre sonhei, o que fez a Cemfreio nascer - o luto que me impulsionou a sair da zona de tristeza e me colocar mais próximo da minha realidade, realidade que surta ou morde a cara! - ganhei uma irmã. Ganhei uma confidente. Ganhei um pedaço de amor que sempre almejei e tava do meu lado e nunca pude tocar. Ganhei Igi, a pessoa que fez o espetáculo ser o que foi. Ganhei o sobrenome Ayedun. Ganhei de meiota também uma mãe, que me liga todo dia e pergunta como eu estou, que estava lá, segurando a minha mão na hora que tudo acabou, que enxugou minhas lágrimas quando o processo foi árduo.

Ganhei uma força de mudança que só o amor pode construir. Ganhei a melhor vivência da minha vida até hoje. Eu ganhei muito e devo isso tudo a vocês. Eu ganhei e quero distribuir. Quero distribuir. Estou distribuindo!

Assistam ao video do desfile e sintam o amor que doei a ele, saibam que tudo que faço e fazemos é pra mudar a realidade de mais gente, pode parecer utópico, mas quero horizontalizar a criação e descolar o objeto arte da elite. 

Valorize sua criatividade, pois é de lá que vem a mudança.

 

 

 

  

Apolinário está participando da Votação Meio-Fio

Depois das trocas de inspirações, histórias e experiências chegamos a uma nova fase do Melissa Meio-Fio: a exposição de ideias. Os Refletores foram convidados a desenvolver um projeto autoral que revelasse suas singularidades e devolvesse um pouco da força criativa que São Paulo oferece diariamente. Orientados por um Conector, eles receberam a chance de olhar para si mesmos, suas expressões e potências e criarem algo que refletisse seu percurso até aqui.

 

Descubra os projetos e vote no seu favorito, 3 deles serão escolhidos e materializados em 2017

 

 

Fotos : Marcelo Paixão